A infecção


Ela nunca imaginou que sua vida seria assim. As doenças incuráveis e a loucura. Mas foi o que aconteceu.

“É a aleatoriedade da vida”, poderíamos dizer, para tentar consolá-la. Mas ela finge que não busca mais consolo. “Não, foram escolhas”, retrucaria. Péssimas escolhas. Em meio ao caos da vida. Ao capitalismo, a histórias de vida de pobreza e tristeza. Quem poderia culpá-los?

Mas o que importa isso agora?
Importa a mãe na cadeira de rodas. O aspecto cadavérico do pai, que não se importa com a mãe. A internação psiquiátrica da irmã. E o seu próprio sofrimento. Mental e físico.

No shopping, entre vitrines brilhantes e passos rápidos dos consumidores, na lentidão dos passos da mãe, sonhou: e se as coisas tivessem sido diferentes?

Se o pai não tivesse se infectado.

Se a mãe hoje andasse.

Se não tivesse faltado oxigênio no parto.

Se o pai não tivesse sido mandando embora.

Ou se ele tivesse simplesmente buscado outro emprego em vez de voltar para o interior.

Nada disso teria acontecido?

Infelizmente não.

Poderia ter acontecido aqui mesmo. Agora. Está acontecendo inclusive neste momento com milhares de pessoas. Não é um caso único.

Ainda assim… O nó na garganta.

“Mas nada teria acontecido se você tivesse andado na linha”. A acusação ecoa no não dito. Esse lugar etéreo.

“Andei na linha a vida inteira: trabalhei, te sustentei, paguei todos as suas contas”. Ouço a réplica muda, que nunca existiu. Afinal, nunca falamos sobre isso. Os interditos.

Deu tudo errado.

Seu negócio não foi pra frente.

Chegou um momento em que você não tinha mais nada.

E você juntou o que tinha… uma mudança que coube num Palio, já pra mais da metade da vida.

E você veio.

Você já devia estar se sentindo mal.

E foi a melhor coisa que você fez.

Porque você ia morrer lá e sozinho. No fim de mundo que você nasceu.

Acho que faz uns 24 anos.

“Agora eu já posso ir embora. O seu pai voltou “, ouvi de quem eu amava.

E me senti digna de pena.

Ele só estava longe.

Ele nunca me deixou faltar nada.

Mas era melhor ter faltado e a gente estar juntos, sabe?

Foi o que eu queria ter dito pro garçom que queria deixar a filha pra ir pra Nova Zelândia tentar a vida.

Naquela noite, que eu ainda lembro.

Passando mal, com dor, do lado de alguém que também não se importava. Repetindo. Comigo mesma essa mesma história.

Um comentário em “A infecção

Deixar mensagem para Lidianne Monteiro Cancelar resposta