Encerrei mais uma aula de fim de semana inteiro. Experimentei estar novamente com um grupo de colegas de profissão, discutindo a aplicação dos nossos conhecimentos. Alguns colegas muito jovens, professores muitas vezes mais jovens que eu. Tudo muito dinâmico, muito intenso, muito.
A aula anterior tinha deixado uma marca dolorida na pele, um hematoma de confusão entre vida real e vida aparente digital. Aquilo que vendemos nas redes não pode ser o mesmo que vendemos nas salas, eu imagino. Quem se apresenta para a gente é um ser humano. Colegas de profissão. Somos iguais, não?
A experiência de viver na era das redes sociais é, para mim, a mesma de viver de aparências no século passado. As fotos mais bonitas, o pescoço esticado e sem rugas, a família sorridente de dentes clareados, os cabelos no lugar, a roupa de grife comprada no brechó ou herdada do parente abastado.
Criamos personas para nos representar. Sou Elaine, prazer! Esposa amorosa, filhos bem-educados, casa limpa e arrumada. Sou Elaine, prazer! Profissional responsável, arquiteta há 15 anos, servidora pública, cumpridora dos meus deveres. Sou Elaine, prazer! Escritora de livros infantis, de contos e crônicas voltados ao ativismo, pró mulheres, diversidade, questões raciais e direitos iguais. Sou Elaine, prazer! Filha, irmã, amiga, estudiosa, comprometida, briguenta, opiniosa. Não, não sinta prazer em me conhecer assim.
Não sou nenhuma delas, não importa onde tenhamos nos encontrado. Sou todas. E não sou perfeita como nesse retrato que pintei, nem sempre o que digo e escrevo vai te agradar.
Cansei de só conhecer você por aquilo que você me apresenta. Cansei de me apresentar somente como uma dessas vertentes de desenho bem delineado e retificado. As redes sociais cansam demais. Ver hoje um professor se emocionar e se abrir com a gente, desde o salário às dores de não conseguir pagar o aluguel, desde o sucesso de estar num lugar de alto padrão até seus projetos mais lindos, me deu um panorama muito grande da pessoa que ele é. E eu gostaria de conhecer a todos assim. Como humanos, integrais. Estar com ele foi como passar cânfora no hematoma.
Somos iguais na nossa humanidade. E sinto que houve uma conexão profunda de todos os colegas presentes nesse fim de semana. Baixamos nossas máscaras e nos mostramos reais, sem ressalvas. Experimentei uma oportunidade de me sentir acolhida, de enxergar além da rede, da tela, da aparência.
Na próxima aula de fim de semana inteiro, juro, estarei mais aberta às falas de cada um, vou escutar com atenção, e quando me apresentar, bem, você já me conhece…

Que crônica linda, Elaine! Mostrar vulnerabilidade nos ajuda a nos conectarmos porque mostra nossa natureza mais humana. Parabéns!
CurtirCurtido por 1 pessoa
Amiga, seu texto é muito necessário. Tenho percebido pessoas adoecidas por causa das redes sociais. E a questão das aparências é o que mais desestabiliza as pessoas. Viver de aparências é comer sardinha e arrotar bacalhau, como dizia minha tia. E conhecer pessoas é difícil mesmo. Leva tempo. Exige paciência e aceitação. Eu costumo usar as redes e não ser usada por elas e mantenho a distância necessária. Parabéns minha querida. Milhões reflexão por aqui. ❤️
CurtirCurtido por 1 pessoa
Esse “parecer ser” está minando as relações humanas. Me peguei pensando em algo similar esses dias, fazendo as contas do tamanho do sacrifício a ser feito para ter tudo o que almejo. Boa parte era por mera aparência e não por essência. Sair das redes sociais e encarar a realidade me faz um bem danado, sem pressões. Ainda bem!
CurtirCurtido por 1 pessoa