Li um texto que me trouxe um misto de inquietação, “aceita que dói menos” e que atiçou um bicho dormente que mora em mim. A querida amiga Aline Valek, escritora que admiro sem fim, tem uma newsletter chamada Uma Palavra e publicou em 29 de junho de 2024 o texto Neurose com Números.
Quando Aline escreve, é como se eu me olhasse de fora várias vezes. Não temos vidas semelhantes, mas talvez o início dos nossos caminhos seja parecido em alguns pontos e isso me atinge em cheio. Nesse trecho especialmente:
“Nada como circular nas panelinhas intelectuais de São Paulo para se sentir pobre, desinteressante e atrasada! Eu tinha tanta vergonha de não ter tido acesso às mesmas referências que aquelas pessoas consideravam básicas (desculpa, é que eu não sou daqui, eu vim de outra classe social) que cheguei a listar em um caderno todos esses nomes de autores oh-meu-deus-não-acredito-que-você-nunca-leu.”
Aline Valek.
Logo me veio a imagem dos primeiros dias na faculdade, quando contei aos novos amigos que li meu primeiro Machado de Assis na escola pública no último ano do ensino médio e não gostei. Desculpa, Machado, era Helena! E eu precisava de heroínas poderosas para me inspirar. A realidade já era bastante bizarra.
Mamãe fez um esforço para me ajudar a passar no vestibular e comprou um kit de 18 livros de literatura brasileira que vendia com o jornal O Globo, um dinheirão. Li uma parte deles, mas acho mesmo que li o final de todos, o resumo e a moral da história, porque trabalhava e o tempo era escasso.
Aliás, tempo sempre único, um continuum onde coloco em linha reta todas as coisas que preciso fazer. Se entra uma atividade nova, outra precisa sair. Essa coisa do tempo ser a quarta dimensão, hum-hum, Einstein vai precisar me explicar melhor em outra hora. Agora tô com pressa!
Comecei a frequentar uma livraria perto do trabalho que tinha um livreiro com o meu sobrenome. Ele indicava o que estava bombando para uma garota de 20 anos na época, os “trend” da Gutemberg. Conheci Zelia Gattai, Richard Bach (aquele do Fernão Capelo Gaivota, numa versão ainda mais autoajuda), Ana Maria Machado (Young Adult) e Leonardo Boff. Esse, tive a oportunidade de tietar, pegar autógrafo, ler e reler muitas vezes. Foi minha bíblia durante a turbulência de descobrir que o trabalho era desagradável e algumas pessoas também.
Não é que não tenha lido muito na adolescência e na juventude, apenas não li aquilo que se esperava. Mais velha, de tempos em tempos, comprava um livro top da lista de mais vendidos da Veja e lia para ter assunto nas rodinhas de conversa. Nunca era suficiente. Assinava jornal, revista, lia na barca, em pé no ônibus, no sinal. A sensação de não saber morava ali, naquelas páginas que eu carregava na bolsa sem tempo de folhear.
Com o advento do casamento a estante de livros mudou. A pequena biblioteca que parecia desinteressante ganhou novos títulos, uma vida mesclada em lombadas coloridas. Os filhos pequenos adicionaram novas camadas de literatura infantil todos os dias. Pela manhã, os clássicos de Andersen, Grimm, Ruth Rocha e Ana Maria Machado. À noite, livros para acalmar. Até descobrir que eu poderia ler tudo o que quisesse para eles, e que com isso, aquele tempo único que compartilho com todas as coisas prazerosas que faço, poderia ser tanto deles quanto meu. Libertador!
Macunaíma, Hamlet, A falência, Irmãs da Revolução, Dom Casmurro, O Livro do Desassossego, A padaria dos finais felizes (que virou um vídeo no YT), Rei Lear, o Mandarim, Neuroses a Varejo, Pequenas Tiranias… no limite, me preocupo apenas em cortar trechos muito sangrentos para que eles durmam um sono tranquilo. Lemos em voz alta, em família. Às vezes eles leem para mim. Todo mundo pode comentar. A visão das crianças sobre as obras me dão novas perspectivas.
Voltando ao texto da Aline, faço listas para comprar e ler depois. Espero promoções, compro em sebos quando me interesso demais pelo tema e está escasso nas livrarias. Quando chegam, abro alguns e leio vorazmente, outros deixo marinar ainda em sua embalagem original, para manter o cheiro de folha nova preservado. E um dia, estando o alimento pronto, desembrulho, inspiro seu cheiro de vida, e começo a me deliciar lentamente.
Não achei nenhuma fonte segura para esse trecho, mas cito aqui porque ameniza a culpa:
“Se, por exemplo, consideramos os livros como medicina, entendemos que é bom ter muitos em casa em vez de alguns: quando se quer sentir melhor, então vai ao ‘armário dos remédios’ e escolhe um livro. Não um aleatório, mas o livro certo para aquele momento. É por isso que você deve ter sempre uma escolha nutricional!”
Umberto Eco.
Ficar neurótica comparando meus livros lidos com as listas de livros lidos dos colegas, ou invejar sua organização para ler mais livros, ver mais filmes, escrever e publicar, vai me fazer mais feliz?
Nada… leio porque me dá prazer. E sem prazer, não leio nada.
Não saber qual a briga do momento, qual o sucesso do tiktok, qual a série trend, não me fazem menos eu, nem mais, nem menos feliz. Então, dou novamente o braço a torcer. Aline está certa, isso tudo passa! E o bicho dormente que vive em mim e levantou assustado com o cronômetro tiquetaqueando nos ouvidos, foi dormir tranquilo outra vez. Conhece esse bicho? É a ansiedade…

Uma reflexão bastante sincera a sua, Elaine, sobre modismos e preferências pessoais literárias. Curti. Cada um é cada um, e isto vale também para o que se gosta de ler. Há dias para maiores densidades e dias para superficialidades propositais. O que vale é o prazer contido na experiência. Abraços.
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Concordo plenamente com vc, Carlos! E ter tantas pessoas com gostos diferentes faz um bem enorme para a arte literária. Obrigada pela leitura e abraços
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De fato, Elaine, a leitura é um ato de prazer e não deve ser utilizada como comparativo entre pessoas e classes! Adorei!
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Obrigada, Alexandra! Saber que podemos trocar experiências de leitura ao invés de comparar é uma alegria.
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Tenho me policiado para não ler apenas para produzir resenhas, por exemplo, ou cumprir requisitos. Apenas ler por ler, porque gosto. Ler por prazer. Como se toma um sorvete. Acho que é essa a ideia.
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É uma delícia ler pelo prazer de ler. Te apoio!
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Deliciosa reflexão… Dá vontade de sentar para conversar sobre autores, livros e processos de leitura!
Para mim, ler é como respirar. Não me vejo viver um dia sequer sem praticar as duas coisas.
Agradeço por delinear a sua história. Dos textos lidos, você soube moldar ideias e visões de mundo que resultam em criações poderosas como essa que você compartilhou hoje. Gratidão!
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“ler é como respirar!” Adorei demais isso. Esses dias foi a news de outro colega que trouxe essa reflexão, sobre como lemos o tempo todo, das placas de trânsito aos grandes clássicos, passando pelos Twitts.
Gratidão a sua leitura atenta e seu carinho com a minha escrita (sempre!)
❤️
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“ler é como respirar!” Adorei demais isso. Esses dias foi a news de outro colega que trouxe essa reflexão, sobre como lemos o tempo todo, das placas de trânsito aos grandes clássicos, passando pelos Twitts.
Gratidão a sua leitura atenta e seu carinho com a minha escrita (sempre!)
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Preciso reforçar o quanto é maravilhoso você ler para seus filhos literatura de todos os tipos, sem subestimá-los pela idade, e tornar a leitura um momento tão inclusivo! A trajetória de cada leitor é única, por isso as comparações não passam de uma cilada. Como disse um comentário ali em cima, leitura deveria ser fonte de prazer, não de competição. Obrigada por continuar essa conversa aqui ❤
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Eu te agradeço por iniciar essas conversas que me fazem refletir. O que fica pra mim ao final de tudo é essa lembrança do que sentimos quando compartilhamos as histórias. E quando um de nós vive uma situação que remete a uma passagem de um livro, é um êxtase.
Volte sempre! ❤️
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Diversidade funciona pra muitas coisas, inclusive leituras. Ultimamente comecei várias que me curaram em momentos certos e não terminei nenhuma, mas tudo bem porque elas ainda estão lá. Achei engraçado sobre Helena pq li durante uma TPM furiosa, chorei horrores e me senti bem depois, então pra mim funcionou hehehe Amo o poder de uma boa leitura, que não devia servir de status pra ninguém, devia ser apenas gostosinha como a maioria das coisas deviam ser.
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Hahaha adorei a leitura de Helena numa TPM furiosa, acho que devo ter lido num momento assim! Kkkk
Será que reler agora, em plena menopausa, vai mudar meu olhar?
Aline, vc me trouxe mais perguntas…
Como apreciar a arte se a estamos consumindo? Temos que lembrar que literatura é arte para não cair nas armadilhas mercadológicas. Beijo
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