Eu pequena

Ela caminha em minha direção como uma seta disparada por um arqueiro hábil. Caminha em linha reta e inequivocamente me tem como destino. À medida que se aproxima, consigo ver seu vestido de listras amarelas e azuis, dançando na cadência do seu caminhar. Seus cabelos lisos estão presos em um rabo de cavalo que também balança em cadência com o conjunto. Ela tem um leve sorriso que se ancora no pouco que sabe mas no muito que o coração almeja. Os olhos são dengosos e me pedem abrigo.

Quando ela está bem perto de mim, meu coração estremece pois percebe de quem se trata. Aquela pequena figura de pernas roliças e mãozinhas pequenas se abre em um abraço e me enlaça. Começo a chorar silenciosamente pois estou emocionada de tê-la, agora, tão próxima a mim. Compadeço-me daquela criaturinha pequena, frágil e tão virgem de desilusões e expectativas.

Nós gostamos de abraços. Então ficamos imersas nesse aconchego por um bom tempo. O vento sopra, balança as folhas das árvores e mistura nossos cabelos. Sinto seu perfume suave e fresco de criança com banho recém-tomado. Ela está tranquila, entregue a este momento. Não sei o que ela espera de mim. Na verdade, ela também não sabe.

Resgato minhas lembranças para refletir qual conselho darei a ela. Devo alertá-la sobre quais perigos? Qual decisão nossa não deveria ter sido tomada do jeito que foi? Quais sofrimentos poderiam ter sido evitados com uma pequena mudança de curso? Devo entregar a ela o tesouro (ou o fardo) de saber tudo que acontecerá no seu futuro? Mas se eu disser e ela mudar tudo, eu ainda existirei? Existirei do jeito que sou?

Tranquilamente, vamos afrouxando nosso abraço. Ainda estou emocionada mas já consegui secar os olhos e a face. Ela continua me olhando ternamente. Seus olhos me veem com admiração e sinto que ela espera algo. Então, eu digo:

– Sei que não parece mas eu sou você. Continuo sendo você. Às vezes eu também me esqueço disso. Por mais estranho que possa parecer, a maturidade me alertou que preciso me conectar mais com você, com a criança que fui, com a essência que vive camuflada sob as tantas camadas que fui construindo ao longo do tempo. Muito obrigada pelas decisões que tomamos. Elas nos trouxeram até aqui do jeitinho que tinha que ser. E se eu puder lhe dar apenas um conselho, seria o de não se desconectar do que a gente verdadeiramente é. Mesmo com todos os desafios, tribulações e a importância que você dará às expectativas alheias, sua essência deverá ser seu norte. Não se afaste dela. Depois, pode ser muito difícil encontrá-la novamente. Mas, se ainda assim, você se perder dela, sempre haverá um caminho de volta. E sim, nós somos o bastante.

                Seus olhinhos ficaram apertados, como quem se esforça para enxergar o que precisa ser visto. Suas bochechas levemente ruborizadas se movimentaram com seu leve sorriso. Apesar da pouca idade, pareceu entender o que eu dizia. Nosso encontro está chegando ao fim e sinto que chega a hora dela se despedir para retomar seus passos, retornando por onde veio. Pouco a pouco, sua imagem vai se desmanchando no horizonte. Sinto vontade de chamar por ela para que volte e eu possa lhe contar, dessa vez em tom mais leve, sobre as tantas coisas boas que acontecerão. Mas não o faço porque não é necessário, já que ela está e sempre esteve comigo. Grata por tudo, levanto-me e sigo para casa, arrastando na saia longa e colorida os raminhos verdes da grama do parque.

7 comentários em “Eu pequena

  1. Ter esses “encontros” mais vezes é fundamental para nos manter com o “norte da essência “ , se não a gente esquece quem realmente somos ! Obrigado por esse “sopro no rosto” , feito criança com soluço !

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  2. Acredito que tomaria a mesma decisão, de não revelar tudo que iria acontecer ao meu “Eu” mais jovem. Mas diria a ele que aproveitasse mais, que não se limitasse, que acreditasse mais em seu potencial, que fosse mais paciente consigo mesmo e que mesmo que as coisas parecessem sem sentido ou solução, que “Eu” seguisse em frente sempre, sendo o mais feliz que posso e buscando fazer as melhores escolhas possíveis.

    O tempo passa tão rápido que nem nos damos conta de que fomos jovens descobridores e criativos, que brincávamos e tínhamos uma vida tão inocente e sem perceber isso muitas vezes pode ser esquecido. Obrigado pela reflexão Lidi!

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  3. Seu texto oferece reflexões tão profundas… embora leve e fresco!!!

    uma espécie de terapia…. poética!

    Sempre é bom se reencontrar… Mesmo se nada se possa alterar do que passou… E talvez nem altere o que vem pela frente. Encontrar a nossa essência é mais do que tudo reforçar as nossas raízes mais verdadeiras e puras.

    Obrigada!!!

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  4. O encontro com nossa criança é tão indispensável quanto a vivência de nossa versão adulto. Somos tão frutos do que fomos, que não consigo dissociar. Sempre fui e hoje somos. Duas em uma. Acolhida e acolhedora. Mãe e filha. Tudo em uma só pessoa. Meu eu ontem e hoje, com dores e sabores.

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