Resenha do livro “Eu sei porque o pássaro canta na gaiola” (autora Maya Angelou)

Deparei-me com esse livro na Bienal do Livro de Fortaleza, em 2022, e o adquiri junto com outras obras. Até então eu nada sabia sobre sua autora, a americana Maya Angelou. Mas fui capturada pelo título avassalador que me fisgou com a promessa de me explicar como alguém privado de liberdade enxergaria o mundo e, de certa forma, floresceria nele . De lá para cá, o nome de Maya surgiu para mim em diversos momentos, inclusive com outro livro dela indicado em um clube de leitura do qual eu fazia parte. Ainda antes de concluir a leitura de “Eu sei porque o pássaro canta na gaiola”, descobri a importância da autora não só na literatura mas também em outras áreas da arte e, também, no ativismo em defesa de inúmeras causas importantes.

O livro demorou um pouco a me cativar após iniciada a leitura. A obra é autobiográfica e confesso que o relato da infância de Maya, a princípio, não me chamou tanta atenção, com sua narrativa detalhada do mundo em que ela vivia enquanto criança, boa parte dele em Stamps, no Arkansas, na companhia de um irmão, da avó paterna e de um tio deficiente. Minha avidez por entender a mensagem que o título do livro me instigava talvez tenha me atrapalhado nessa primeira parte da leitura, onde a tônica era a de uma criação rígida por parte de uma avó muito religiosa, austera e calejada pela segregação racial americana.

Alguns elementos são muito marcantes na narrativa de Maya. Sem dúvida que o racismo é um dos temas mais recorrentes e impactantes, não só na vida dela mas de toda sua comunidade e entorno, ditando os códigos de conduta que levam a muitas das ações narradas no livro e que nos fazem saltar os olhos para tanta injustiça e desigualdade. Da infância de Maya, impossível não se sensibilizar com duas situações, dentre várias, extremamente comoventes. Uma deles é quando a menina precisa de atendimento odontológico urgente e não consegue, em uma primeira tentativa, porque o dentista branco se nega “a colocar a mão dentro da boca de um preto”, ainda que a família de Maya pudesse pagar pelo serviço. E a outra, a do abuso sexual sofrido por ela na infância. Esta narrativa de Maya nos traz um nó na garganta porque relata algo vil e inconcebível e é narrado como se fosse a menina Maya (e não a escritora adulta) a contar, com toda a ingenuidade, incompreensão, medo e culpa que se espera de uma criança.

Fiquei extremamente impactada pela narrativa da Maya adolescente, com sua construção do ser mulher e a busca por seu lugar no mundo, driblando o caos, o preconceito, a escassez de oportunidades e a insegurança familiar. Cada linha lida é um deleite. Não só pelos relatos em si e o tanto de aprendizado que se pode tirar deles mas também pela escrita inteligente e verdadeira, que passeia entre o poético e a crueza. Um dos prefácios da edição que li traz Djamila Ribeiro dizendo que a obra “merece ser lida em doses”, sorvida aos poucos. Precisei pausar minha leitura em certos momentos, descansando o livro aberto sobre mim, longe dos olhos, para de fato tentar enxergar o que me era mostrado. Uma pena a narrativa acabar antes de conhecermos a Maya adulta. Contudo, o prólogo fornecido pelo livro nos dá a dimensão do porquê dela ter se tornado a mulher importante que foi e de como ela floresceu e cantou na gaiola para, depois, libertar-se dela e ajudar outros cativos no mesmo caminho.

3 comentários em “Resenha do livro “Eu sei porque o pássaro canta na gaiola” (autora Maya Angelou)

  1. Imagino a dor de ler sabendo que cada linha é real. Maya, idosa, que escreve Carta a Minha Filha, é capaz de rir dos erros cometidos, de nos transmitir a dor e a alegria que sentiu, a força de sua luta. A vida parece só fazer sentido quando olhada em retrospectiva.

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