A Vida Sempre Acha um Caminho (ou a Flor de Jericó)

Certamente você já se deparou com calçadas com rachaduras de onde saíam umas ramas verdes de plantinhas teimosas que não sucumbiram à rigidez do concreto e irromperam bravamente. A vida em potencial estava ali, encarcerada e confinada mas viva e resistindo. Na primeira brecha, ela desabrochou.

Uma vez, deparei-me com uma frase em um livro de hidráulica que lançava mão de uma citação que dizia que a água sempre acharia um caminho, por isso um livro inteiro dedicado aos movimentos dela e em como a engenharia deveria lidar com ela para tirar todos os proveitos que esse líquido precioso, porém voluntarioso, poderia nos oferecer. Essa frase sempre ficou em minha mente e já faz um tempo em que eu resolvi extrapolá-la, a partir do exemplo das plantinhas que citei há pouco (mas não só delas), de que, na verdade, a vida (e não só a água) sempre achará um caminho.

E para além dos exemplos da natureza, que são inúmeros, o que mais me chama atenção mesmo para o imperativo da vida e de como ela pode resistir a situações extremas, são as experiências da vida humana e de sua insistência em florescer, mesmo quando o cenário parece tenebroso.

Os mistérios do mundo são imensos e eu nem de longe me arriscaria a chegar perto da chave que abre a porta das respostas, caso tivesse esse mapa do tesouro. Mas fico observando, do meu cantinho limitado e deveras protegido, os exemplos que me instigam a questionar o porquê de tanta destruição e irracionalidade no mesmo mundo onde brotam exemplos de resistência e esperança. Mais um paradoxo dessa existência permeada deles.

A despeito das guerras que permeiam esse ano que se despede, sejam conflitos armados em outros territórios ou a nossa guerra da desigualdade e violência diária das cidades brasileiras, é sobre a nossa capacidade de superar as adversidades e de ter esperança que me instiga a refletir. São os voluntários espalhados pelo mundo e que se doam pela vida do próximo (e fazem diferença de verdade nessas vidas) que me mostram que um desejado feliz 2024 pode ser possível, dentro das limitações que as próprias decisões da humanidade impõem.

Os abrigos de pessoas e animais, os voluntários que se voltam para as pessoas em situação de rua ou para os encarcerados, os ativistas pelos direitos das mulheres, dos idosos e das pessoas com deficiência, os que lutam pela população LGBTQIAPN+, os que se dedicam à educação transformadora e inclusiva, os que executam políticas públicas de verdade e mais um tanto de gente que se envolve com causas importantes (às vezes com alcance não tão extenso e visível mas igualmente relevante) e que ajudam a vida a florescer e frutificam toda a potência guardada e ainda não desperta é que me trazem o alento de que um novo (e melhor) 2024 pode ser semeado, regado e colhido.

E se a vida pode renascer coletivamente, o que não dizer da nossa experiência também como indivíduos? No nosso caminhar e nas descobertas que a estrada nos traz para que aprendamos a passar por essa trilha da melhor forma? Às vezes a lição que vem com as adversidades é dura e difícil de ser digerida mas nela pode haver uma brecha, tal qual a da calçada de concreto, para irrompermos em viço e potência.

Conversando uma vez sobre o assunto dessa crônica, uma pessoa me falou na Flor de Jericó, uma planta que teria a capacidade de guardar nela a chama da vida mesmo em situações bem extremas, inclusive parecendo que havia sucumbido, mas que, ao menor sinal de água e sol, ressurgiria em plenitude, como se renascesse. Gosto de nos imaginar como essa flor e pensar em nossa resiliência e insistência, apesar de nossas limitações e fragilidades.

Ainda que a dinâmica do mundo tenha seu ritmo próprio e, muitas vezes, alheio aos nossos desejos, nossa fortaleza pode estar em reconhecer nossa limitação e, mesmo assim, optar por seguir em frente e florescer.  Cientes também de nossa efemeridade apesar da força (outro paradoxo), nos permitir brilhar o mais intensamente possível. Mia Couto disse, em seu livro “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, que “a vida é fogo e nós somos breves incandescências”. Então, sejamos Flores de Jericó, na medida em que podemos, e no tempo em que nos for permitido “incandescer” por aqui.

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