Aperta o botão e dispara:
– Você viu a última foto dele?
– Não. Por quê?
– Foto na neve. Ela pendurada no pescoço dele e enrolada na echarpe que eu comprei. A foto seguinte é ela mostrando o sapato Louis Vuitton e dizendo: “Presente do meu amor”.
– Sério?
– Juro! E ele ainda vem me dizer que não consegue pagar a minha parte na divisão dos nossos bens.
– E aí, amiga?
– E aí que eu tô com ódio!
Elevador chega e entra uma multidão atenta. Todos escutando a conversa das amigas e se entreolhando. Um risinho disfarçado nos olhos de cada um.
– Aperta o 12 pra mim, faz favor?
– E você sabe quem é ela, Amanda?
– Uma iludida, amiga, certeza! Ela está achando que ele tem muito dinheiro e é só “postando” foto na praia, viajando, “marcando” restaurante caro. Eu fico só observando. Às vezes me dá vontade de comentar e falar umas “verdades”.
– E qual é a “verdade”?
– Que ele vive “de fachada”, que não tem onde cair morto e que depois que enjoar do relacionamento, vai cair fora.
– Por que você acha que essa sua “verdade” vai ser também a “verdade” deles?
– Como assim?
– Que o que aconteceu na história de vocês vai se repetir nessa nova história?
– Porque ele não presta, amiga!
– Mas, por um tempo, vocês foram felizes, não foram?
Silêncio na cabine. As pessoas olham para o chão, tentando fingir que nada ouvem. A porta abre e entra um casal de idosos.
– Mas eu não me conformo com essa exposição dele, fingindo ser o que ele não é. Você acredita que na semana passada ele veio me pedir para devolver umas taças de vinho que a mãe dele deixou lá em casa para a gente usar em um jantar que oferecemos? Disse que a mãe dele queria de volta. Mas eu aposto que é ela que está querendo.
– E por que o que ele faz da vida dele lhe afeta tanto? Vocês não são mais um casal. Você entende isso?
– É claro que eu sei disso!
– Você sabe. Mas você aceita?
A porta se abre e, apesar da hesitação, algumas pessoas se dirigem para a saída. Precisam desembarcar nos seus andares apesar de quererem continuar a ouvir a história que parece rumar para outro caminho. As portas quase se fecham mas um funcionário do hospital as interrompe bruscamente. Ele entra conduzindo uma paciente em uma maca.
– Amiga, esse seu inconformismo fala mais do seu sentimento do que das ações dele. Você não devia mais acompanhá-lo nas redes sociais. Não está fazendo bem para você.
– Hã?
– Por que você não se afasta das redes sociais deles e tenta focar em você, nas suas coisas, nos seus planos? Um mês sem redes sociais e acho que você vai começar a pensar em outras coisas, nas suas coisas.
– Mas eu tô muito machucada…
– Eu sei…
– Lembra da Luiza? Ela também me disse para não olhar as redes sociais dele. Está tentando a todo custo me apresentar um amigo dela. Disse que é muito gente fina e tal. Disse que só se esquece um amor antigo com um novo.
A senhora idosa no elevador olhou para ela com jeitinho de quem queria aconselhar, dizer que não era bem assim mas se omitiu pois não era seu costume se intrometer na conversa alheia, ainda que as mulheres não parecessem se importar com a escuta de estranhos. A paciente da maca, que parecia mais lúcida (e talvez fosse) do que todos juntos, não hesitou em se envolver na conversa:
– Faz isso não. Dê um tempo para você ser sua e não de outra pessoa.
Todos do elevador tinham ignorado a paciente desde que ela havia entrado, tentando fingir normalidade com a rotina do hospital. Então foi estranho ouvir esse comentário de quem se fingiu que não estava ali. A senhorinha idosa sorriu e assentiu com a cabeça, concordando. Amanda deixou a lágrima represada finalmente cair e olhou para a amiga, buscando apoio. A amiga pegou sua mão e disse:
– Que tal deixarmos essa visita para outro dia? Vamos tomar um café?
O elevador chegou no 12º andar. O casal idoso, a paciente, o funcionário e mais outra enfermeira, que tinha subido no andar anterior, desceram. Ficaram apenas as duas amigas que apertaram o botão “T” e começaram a viagem de volta. Amanda nada mais disse e as outras pessoas que entraram depois, no elevador, trouxeram assuntos triviais como o clima, o preço dos combustíveis e o caos do trânsito. Amanda juntou seus pedacinhos e desceu no térreo. O café estava do outro lado da rua.

“Faz isso não. Dê um tempo para você ser sua e não de outra pessoa.” Esse comentário foi maravilhoso! E muito corajoso também! Adorei o texto! Mostra a realidade em que vivemos hoje! Antes terminar um relacionamento já era doloroso , imagine agora que se acompanha a felicidade do antigo companheiro seguindo em frente com outro amor!
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Comentário poderoso, né? Às vezes as pessoas querem emendar relacionamentos sem estarem preparados e sem se permitirem um tempo para autorreflexão e aprendizado. E, pior, ainda estando muito doloridos do que viveram. E as redes sociais não ajudam nisso. Rsrs. Obrigada por seu comentário, Virginia!
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Adorei o texto! Mostra a realidade em que vivemos hoje! Antes terminar um relacionamento já era doloroso , imagine agora que se acompanha a felicidade do antigo companheiro seguindo em frente com outro amor! “Faz isso não. Dê um tempo para você ser sua e não de outra pessoa.” Esse comentário foi maravilhoso! E muito corajoso também!
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Certeiro o conselho da paciente na maca! Também acho importante tomar esse tempo para si para digerir o que for preciso, para se redescobrir, se refazer e poder recomeçar de uma forma tranquila quando se sentir pronta.
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Exatamente, Renatinha! Essa paciente da maca estava muito inspirada. Obrigada por seu comentário!
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Os processos de desintoxicação às vezes demoram, e no amor não existem doses homeopáticas. São duas realidades.
O tempo vai passando e vamos nos impregnando do outro ao ponto de “nessas horas” precisarmos desmamar o relacionamento; antes houvesse um tempo de quarentena ou um coma induzido (quando acordar já era).🤷🏾♂️
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Ah, Lidi. Que riqueza de texto. Existe um mundo aí dentro. Como a carência nos permite aceitar qualquer coisa e “despeitar” de outras. Amei!
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Amei! Eu que não ia sair desse elevador para perder o fim dessa conversa. Você está ficando cada vez melhor nessa sua escrita! Bjo
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