Quando me aposentei, imaginei que gastaria o tempo com viagens, passeios e bons livros, mas o minguado soldo rendeu-me um posto cativo no banco da praça — um lugarzinho simpático, rodeado de casas assobradadas dispostas num círculo quase perfeito não fosse à interrupção para a entrada do condomínio.
Dia desses, ainda pela manhã, o buchicho me chamou a atenção. A vizinha da casa três comentava com a moradora da casa quatro o acontecimento da noite anterior:
— Graça, você está sabendo do bafafá que rolou entre a Celinha e o Romualdo da casa dois? — sem dar tempo para a vizinha responder, ela continuou. — Acredita que o Romualdo ganhou uma bolada na loteria e deixou a Celinha sem eira nem beira? Pediu o divórcio e está de mudança, o desavergonhado! — O falatório foi interrompido pelo toque do celular. — Desculpe-me querida! Mais tarde nos falamos.
Graça, indignada com a notícia, correu para a porta da casa cinco, recém-aberta.
— Dona Damaris, a senhora vai ficar de queixo caído com o babado que rolou na noite passada: o Romualdo, da casa dois, ganhou na loteria, abandonou a Celinha e as crianças, comprou uma casa num condomínio de luxo e está de namoro com uma sirigaita dez anos mais jovem do que ele. Não é um absurdo?
Do banco da praça, vi o caso do Romualdo se espalhar feito fogo em pólvora. Ao meio-dia, o pacato vizinho da casa dois se transformara no mais novo milionário, sem escrúpulos, divorciado, amante de uma jovenzinha com idade para ser sua filha e com viagem marcada para Cancún, apesar da alta do dólar.
Os comentários sobre a vida do Romualdo ainda eram a pauta do dia, quando o próprio, cabisbaixo, entrou no condomínio. Estranhei seu ar de derrota ao se sentar ao meu lado. Parecia lhe faltar coragem para mais alguns passos até sua casa.
— Tudo bem, meu jovem? — revolvi puxar conversa. — Tudo bem, nada, Seu Creonte! O Senhor acredita que a Celinha teve um palpite para o Jogo do Bicho — disse que ia dar jacaré na cabeça —, me incumbiu de apostar uma boa grana no tal cascudo e eu, idiota, não lhe dei ouvidos? Resultado: perdi uma bolada e só Deus sabe o que eu ainda hei de suportar até aplacar a raiva da minha mulher! — Sem opção, senão enfrentar a fera, o rapaz não esperou por consolo. Deixou o banco e arrastou-se para casa, sem se dar conta de que algumas vizinhas viram-lhe a cara.

Muito bom! Coitado do Romualdo! Só lhe sobrou o lamento e a fama de mau caráter! Rsrsrs
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