Não espere as férias para ser feliz

Quando saí de férias do trabalho pela primeira vez, levei a tiracolo uma lista enorme de atividades que eu planejava fazer durante esse período. Naquela época, as férias significavam um dinheiro extra no bolso e tempo livre para fazer coisas que eu julgava necessário fazer e que não encontrava espaço para acolhê-las durante a rotina laboral. Consertar coisas, providenciar outras, organizar documentos e armários e ir a consultas médicas estavam na fila, esperando a vez. A lista era tão extensa que lembro que passava de uma folha de papel. E recordo também de olhar para ela e ter a consciência clara de que o tempo “livre” seria insuficiente para tantas resoluções, o que de certa forma me frustrou logo de início.

Minha família de classe média de pais servidores públicos não tinha a cultura de viajar nas férias. A não ser as idas à cidade natal de ambos, a poucos quilômetros de onde morávamos. Então, eu não sabia lidar com aquelas primeiras férias de mulher trabalhadora. Minha criação e o mundo em que eu vivia haviam incutido em mim que as férias serviam para ganharmos um dinheiro extra (normalmente destinado a necessidades gerais que não tinham relação com lazer) e termos um tempo livre do trabalho. Daquelas férias, o que ficou guardado na minha lembrança foi a matrícula em uma turma de natação que fiz para mim e para Bia. Ela devia ter uns 4 anos e passamos um mês indo à natação juntas, em uma turma mista de adultos e crianças, no meio da manhã. Nós amávamos aquelas aulas e eu percebia o quanto estar comigo naquela atividade a fazia feliz! Foi o melhor daquelas férias inteiras!

Já faz quase vinte anos daquelas primeiras férias. E, felizmente, desde aquela época, sempre tive um trabalho que me permitiu levar a vida com dignidade e que me proporcionou ter periodicamente essas pausas. Mas, de lá para cá, muita coisa mudou.

Com minhas duas meninas ainda crianças, descobri que era possível (e importante) viajar em família nas férias. Sempre haveria uma necessidade que aguardava a vez de ser suprida com o dinheiro extra desse período. Mas por que o lazer da família não poderia reivindicar seu lugar de importância em minha lista financeira e de tempo? Não precisava ser uma viagem para fora do país e nem precisava ser de avião para um lugar famoso. Mas tinha que ser para um lugar novo em que a gente visse coisas que não tinha o costume de ver, que saboreasse novos gostos, que respirasse novos ares, que deixasse o tempo fluir sem consultá-lo no relógio e que, principalmente, convivesse e construísse memórias. Minhas garotas cresceram tão rápido que nem deu tempo de eu perceber que chegaria o dia em que elas não poderiam mais me acompanhar nesses momentos, ocupadas que estariam com suas próprias vidas e compromissos independentes de mim. Mal me dei conta e aportei nessa realidade de praticamente não conseguir mais conciliar nossas agendas de férias juntas.

Ao longo desses anos, as férias passaram de um mero período sem trabalho e destinado a resolver coisas pessoais a um momento aguardado ansiosamente para desfrutar de experiências que o cotidiano de compromissos laborais parecia não permitir. Então, passei a projetar nelas a pesada responsabilidade de renovar minhas energias e me conferir novo fôlego para a jornada seguinte que se iniciaria depois delas. Então, lancei-me a férias aguardadas e planejadíssimas, com viagens com programação intensa, tentando aproveitar cada minuto. Mas a fórmula mostrou-se incompleta também.

Como disse um antigo professor meu: “o mundo não é preto nem branco, é cinza”. Já faz um tempo, então, que percebi que o caminho parece ser seguir pelo centro dessa trilha, transformando esses dois extremos (de lazer quase zero a viagens intensas – e até um pouco exaustivas) em decisões que contemplem a ambos, de cada vez e sem exageros.

Passados todos esses anos, ainda sigo instigada na ilusão de descobrir a fórmula mágica que possibilite a máxima otimização do tempo livre que as férias proporcionam, dividindo-as na tríade resoluções, descanso e lazer. Esta fórmula é tão difícil de ser definida (quiçá impossível) porque nossas necessidades e desejos são dinâmicos e a cada momento são diferentes. Às vezes, peso mais a mão em apenas um vértice desse triângulo e o tripé acaba ficando um pouco desequilibrado. Porque a cada período de férias sou uma pessoa diferente daquela das férias anteriores e em uma fase da vida que me solicita de uma forma distinta. A maturidade também me deixou mais complacente quando a programação sai dos trilhos. Atualmente, aproveito esse “descarrilhamento” do planejamento para ver o que de bom ele me trouxe. O inesperado pode sair melhor do que o planejado. E deixar o universo decidir por você, às vezes, pode ser bom. Afinal, a gente não tem (e nunca vai ter) todas as informações necessárias para a decisão perfeita. Se o controle não é todo nosso, deixá-lo de lado conscientemente, de vez em quando, pode ser libertador.

Sem dúvida que as férias são um oásis no deserto de obrigações. E, por serem uma pausa no ritmo habitual da vida, também podem ser um excelente momento para refletirmos sobre o que somos e o que queremos, possibilitando pensar (ou até agir) em uma mudança de curso, ainda que pequena. É a academia que decidimos retomar, é a visita àquela pessoa especial que nunca mais tínhamos visto, é o ócio que nos permite observar aquilo que está a nossa frente mas que seguia camuflado pelas urgências do dia-a-dia… Contudo, as férias são curtas para a maioria das pessoas. Para muitos, apenas uma ilha de 30 dias no meio do mar de 365. Para aqueles que não usufruem dos direitos trabalhistas em sua labuta, às vezes extenuante e invisível, nem isso. Então, porque esperarmos as férias para sermos felizes e fazermos o que nos faz bem?

Dia desses, saí mais cedo do trabalho para tomar um café com amigos que não via há bastante tempo. No próximo feriado, levarei meus pais para uma cidade que eles sempre quiseram conhecer. Hoje, estive com minha caçula em uma sessão de fotos de formatura que a encheu de sorrisos e a mim de emoção. Neste momento, estou escrevendo, algo que me aquece a alma. Se seu trabalho tem um propósito alinhado com o que você acredita e se você se sente desafiado, valorizado e reconhecido, melhor ainda! Seja feliz enquanto está lá e também ao fim do expediente, quando bater seu ponto, pegar sua bolsa e seguir para casa. A sensação gostosa das férias pode estar na outra esquina, na bilheteria do cinema, na lágrima emocionada ao fim do filme, na mensagem de quem você ama contando sobre uma conquista, no jantar especial no meio da semana, no sono prolongado numa manhã sem compromissos ou simplesmente em um telefonema apaixonado no meio do dia. São as pausas que permitem, de uma vez só, olhar para dentro da gente e, também, enxergar o que há por cima do muro das ocupações, descortinando um horizonte de possibilidades para buscarmos o que nos faz bem em qualquer época do ano.

23 comentários em “Não espere as férias para ser feliz

    1. Adorei o texto! Principalmente porque descreve momentos , situações e sensações que vivenciamos e sentimos muitas vezes no decorrer de nossas vidas!

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  1. Puxa vida! Que bom encontrar não só os sentimentos… mas também experiências em comum.. É justamente esse prazer que nós encontramos ao degustar os talentos literários da minha colega e amiga Lidianne.
    Ela sabe encontrar a beleza dos momentos e das experiências cotidianas … aquelas que mais nos unem …e as partilhar de forma bela, leve e quase palatável!

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  2. Faça pequenas férias nos seus dias ! Adorei me ver nas suas reflexões ! Achava difícil sentir relaxar, em qualquer momento de atividade ou de férias ! Sempre sentia-me demandado !
    Adorei !!!

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  3. Minha querida amiga e escritora Elaine, parabéns! que delicia é ler teus textos tão bem escritos. Esse otimismo e olhar diverso do que acostumamos ter no decorrer da vida, é estímulo e esperança. Ob. Um beijo

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  4. Não só um texto dentro de uma página da internet, mas um compartilhamento cheio de experiências. Gostei demais, Lidianne!

    Também tive esse mesmo pensamento sobre as férias, esse ano principalmente as férias da faculdade foram bem corridas, somente 15 dias :(, e eu ainda comecei a estagiar durante esse mesmo período. O tempo voou! Há uma sensação de que tudo está muito acelerado ultimamente, e que não aproveitamos tudo que poderíamos. Como você bem citou: “nossas necessidades e desejos são dinâmicos e a cada momento são diferentes”, precisamos entender que devemos ser nossa própria prioridade mesmo que o que planejamos saia um pouco do rumo que queremos, não podemos controlar tudo ao nosso redor, mas podemos buscar felicidade e realização em pequenas coisas durante nosso dia. Foi assim, que descobri que não preciso sobreviver até as férias para desfrutar das coisas boas que planejo para elas. E sim que posso aproveitar para refletir no que posso fazer agora para ser feliz.

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  5. Sempre pensei assim Lidi, tentando aproveitar cada momento sem esperar as férias, até pq sempre tive o costume de vendê-las. E acabava fazendo viagens curtas e rápidas num final de semana, aproveitando um feriado, pegando um dia avulso e depois pagando num sábado..e tentando aproveitar o momento mais próximo sem esperar pelos 30 dias de férias.. Esse “quebrar” a rotina, dar um alívio na correria da vida!!! Amei o texto!!

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  6. Parabéns Lidiane!! Texto maravilhoso!! Realmente, não precisamos deixar pra depois o que nos deixa feliz . Precisamos viver o aqui e o agora fazendo o que de verdade tem importância e nos deixa feliz. A vida é um trem bala, passa muito rápido e não sabemos o que ela nos reserva. Temos que viver e ser feliz intensamente, “como se não houvesse amanhã “.

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  7. Ainnn, amei esse texto!
    Tem uma frase que diz que, se a gente cansar, tem que aprender a descansar, não a desistir… me lembrei muito dessa frase ao ler o texto. Parabéns, Lidi, pela linda escrita e por trazer temas tão necessários em falas sempre tão leves de leitura ♡

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  8. Otimo texto, qual o sentido que nosso tempo livre deve ter ? descansar pro proximo dia de trabalho ? se organizar pra por em dias atividades que o trabalho não permite ? pq é tão doloroso num primeiro momento tirar o foco do trabalho para por em si ? o que torna o trabalho o ponto central da sua vida ?

    “E o que traz o trabalhador
    para o mercado? A fome, a necessidade de comer hoje e amanhã.”

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  9. Muito bom, Lidi! Eu também agi assim durante parte da vida. Hoje me permito viver todo dia, observando a beleza das coisas simples, aproveitando as surpresas boas que a vida traz.

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