Hoje eu acordei mais velha. Trinta e dois. E lembrei das aulas de teatro da adolescência. Um dia, o exercício era montar uma cena em que todos os sons tinham que ser expressos por números. E uma aluna inventou uma campainha que tocava: “trinta e dooois”. Morremos de rir! Naquela época, eu nem imaginava como seria essa idade. Te conheci poucos anos depois, em uma dessas aulas ou ensaios. Você era pequeno, mas talentoso como um gigante. E ao completar trinta e dois, percebi que é o dobro de dezesseis, a idade em que te perdi. Todos perdemos.
Saudade.
Admirava seu talento. E sua luta. E o dia da sua partida foi o contato mais forte que tive com a morte. A pior delas. A de um jovem. Cheio de vida.
Saudade.
Lembrei de uma aula que você chamava meu nome pela janela e se escondia. Brincadeira idiota. Engraçada.
Saudade.
E lembrei das festas em que você era DJ. Da cena que você largou e eu substituí. Da louca correria do palco para a cabine de luz. Dupla função. Executada perfeitamente bem.
Saudade.
E pensei também naquela época. Em mim, você, e todos nós. Nosso grupo. Nossa família. Uma fase em que tínhamos esperança. Saímos pelas ruas de nossa pequena cidade com adesivos do candidato a presidente. Aquele que mudaria o país! E daria as condições para vivermos da nossa arte.
Saudade.
De uma fase em que havia lirismo. Havia fé. Havia alguma coisa de romântica que não encontro mais. Na qual escrevíamos cartas de amor. E sentíamos saudade de alguém. Diferente de hoje, em que temos saudade de sentir saudade de alguém. Não temos tempo pra sonhar, nem para amar. Até porque, tudo isso está fora de moda.
Saudade.
De acreditar em política. Em mudança social. Em direitos humanos. Em teatro. Em amor.
Saudade.
De você, dos nossos amigos, da nossa vida. De mim mesma.
Saudade.
“De tempos idealistas que não voltam mais”.
(Quisera eu poder voltar atrás. Ou então, trazer um pouco daquela beleza para o agora. Quisera eu. Mas se não posso, pelo menos escrevo. Se você estivesse aqui hoje, com certeza estaria puto. Tá tudo um saco. Esse tempo não tem nada a ver com você, meu doce artista.)

Esse seu texto revirou uma saudade em mim que não imaginava que existia. Um amigo que viveu um pouco mais que o seu e nesse ano completaria 32. Junto comigo.
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Obrigada por compartilhas este comentário. A missão de um escritor é alcançar o coração do leitor.
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Ahh a adolescência… Uma época de tantas dúvidas nas tambem de tanto idealismo e leveza! Também sinto saudade. Obrigada pelo texto!
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Eu que agradeço a leitura querida!
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Ah, amiga, que conto lindo! Ainda bem que vc não perdeu seu idealismo, que a gente vê nos seus textos e nas matérias jornalísticas que produz. Parabéns
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