Áudio de meia hora


Para quem tem curiosidade de saber o que tanto as amigas falam quando trocam áudios imensos.

Amiga, quando você estava casada, quando você sentiu que era hora de terminar?


Quando fiz terapia.Mas até chegar ao ponto de tomar uma atitude assim, foi rápido? Até porquê vocês tinham filhos, torna tudo mais delicado…

Não foi rápido. Com a terapia, primeiro tive que perceber a quantidade de projeções que eu fazia. Como cresci numa família disfuncional e sozinha, joguei sobre o relacionamento todas as expectativas de sucesso e felicidade. Exigi que fossem tapados todos os buraquinhos que a vida fez no meu coração (“tenho um coração com buraquinhos” ), isso tudo porque eu
colocava o relacionamento como sendo a parte mais importante da minha vida, do jeitinho mesmo que é ensinado a todas as mulheres fazerem. A minha falta de mãe fez eu querer ser uma mãe excepcional. E como parte dessa perfeição eu me dava a responsabilidade de oferecer aos filhos uma família padrão. Daí segurei um milhão de coisas para viabilizar isso.

Tô aqui te acompanhando e aprendendo.

Então primeiro eu tive que desfazer minhas projeções, e tive que reencontrar a mim mesma, como pessoa individual, mais que só 1/2 casal. Porque eu também jogava no “projeto casamento” o boleto de tudo que eu não fiz. Não fiz porque não quis, por preguiça, por incapacidade, por escolhas outras, por fatos alheios ao meu controle. Mas eu gostava de ter alguém de carne bem perto para eu acusar. “eu não _____ para estar aqui com você!” Injusto,
né? Faltou autorresponsabilidade. Outra coisa era querer ter tudo sem ter que abrir mão de nada. A vida é escolher. Para ter uma coisa a gente abre mão de outra. De todas as outras. De um infinito universo de outras. E a gente não pode (não tem o direito de) jogar sobre a coisa escolhida o peso de todas as outras não escolhidas. Um custo de oportunidade imenso! A comparação que vale sim fazer é: coisa escolhida X nada. Porque o nada também é uma possibilidade, saca?

Em especial em relacionamento. Enquanto você é gata, capaz e autossuficiente há muitas alternativas. Só nos momentos em que você fica “indesejável” ou passa a necessitar de apoio é que você percebe que quem realmente aposta em estar do seu lado são poucas pessoas.

Contadas. Se pá… uma só. Então é preciso dar muito valor a quem está do seu lado. A pessoa que continua te escolhendo todo dia. Depois que eu voltei a ter uma vida própria, então sim, passei a ver o relacionamento com o tamanho que ele deve ter: uma parceria para um intervalo da vida, que pode ser de meses ou de décadas. E que vai acabar, seja por tédio, seja pela morte de um.

Fiz um paralelo com minha descrição poética do que é a vida: uma viagem de intercâmbio, aonde estou indo para me maravilhar, turistar, sorrir, aprender… mas também preciso trabalhar e cuidar de mim, dos outros, do lugar. E de onde vou embora, porque meu lugar não é ali.

Parceiro é a pessoa que senta do seu lado no trem. É quem vai vigiar suas malas enquanto você vai ao banheiro, é quem cuida da sua segurança enquanto você cochila. E você retribui. Só que mais profundamente: é para quem olho, que me olha de volta. Nesse trem não há espelhos! A gente só consegue saber quem é quando se olha através do outro. Seu espelho está muito sujo? Ou tem moldura de flores?

E você, que espelho é?

Zelia Barbosa é mãe de dois meninos, trabalha num escritório e dá aula de matemática para crianças. Aplica Reiki, cultiva sonhos e escreve abobrinhas.

2 comentários em “Áudio de meia hora

  1. Zelia, que estreia! Quanto ensinamento profundo nesses áudios.
    Tô aqui com essa frase reverberando em mim: “joguei sobre o relacionamento todas as expectativas”. E a gente faz isso nas parcerias todas da vida, sejam amorosas ou filiais, de amizade ou trabalho, né? É preciso muito autoconhecimento para segurar a onda.
    Obrigada por compartilhar essa sabedoria.

    Curtir

Deixar mensagem para Lidianne Monteiro Cancelar resposta