Ao fechar a porta

Quando uma mulher escreve é preciso fechar a porta atrás de si. Um silêncio profundo me envolve como uma névoa e a aflição da tela em branco é uma velha conhecida. É difícil conter o tsunami de pensamentos que insistem em me levar para o fundo. “Água não tem cabelo”, diziam antigos, para nos encher de medo das águas. Fossem salgadas ou doces. Rasas ou fundas.


É nesse desespero que me vejo, no profundo dessas águas onde não me falta o ar, mas falta o controle. Tento me agarrar a elas que escorrem por entre os dedos das mãos. Reconheço que perdi. É preciso me entregar ao turbilhão e dele extrair tudo de uma só vez. Como uma rede lançada. Um arrastão. E só quando ela chega à tona é possível fazer a seleção.

Trancada no quarto a história aparece na tela. Uma carta, uma crônica, um poema. Milhares de frases e pensamentos pulando ao meu redor feito peixes fora d’água. Nada se perde, tudo se aproveita e quando a bate a fome de escrever é só abrir os arquivos e se fartar.

Ao final de algumas horas, minutos, segundos que seja, abro a porta do quarto para assumir as tarefas do cotidiano. A escritora, sentada em frente a tela do computador, por hoje, sorri satisfeita.

Publicado por ceupassos

Escrevo e rabisco contos, crônicas e poemas. Faço colagens digitais e tudo mais que minha alma deseja e o corpo permite.

2 comentários em “Ao fechar a porta

  1. Tua crônica me lembra o conselho de Virgínia em um teto todo seu, minha amiga. Hoje li outro conselho, de Tereza Cárdenas, “escreva apesar dos obstáculos”. Escrever é o que nos move. Obrigada por escrever sempre! ❤️

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