Seguiu para o Largo do Paissandu. Entrou na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos em busca de conforto para os pés e para a alma. Se acomodou defronte ao altar, sob o olhar piedoso dos santos.Tentou recitar uma oração, mas a memória lhe faltava.
O pároco se aproximou:
— Neste horário não há missas, mas, se quiser, estou disposto a receber sua confissão.
— Não tenho o que contar.
— Muitos dizem o mesmo. Se examinar sua consciência, encontrará pecados e omissões. Não há quem pise nesta terra, exceto o filho de Deus, que não cometa delitos diante dos olhos do Senhor.
— Perdi minhas memórias.
O padre encarou a resposta com o mesmo olhar dos santos.
— Quem lhe roubou as lembranças?
— Dizem que um trauma do qual juram que protagonizei.
— Sinto muito! O que posso fazer por você?
— Busco perdão para o crime que não sei se cometi. Como posso alcançá-lo?
— O perdão advém do arrependimento.
— Eu me arrependo de toda a submissão que explidiu em grave delito, pelo menos é o que dizem. Isso basta?
— A culpa, seja ela qual for, não é daquele que é submetido mas de quem submete sem piedade.
— Há penitências a cumprir?
— Viver já é o bastante. — Indulgente, o pároco ungiu sua consciência, absolvendo-a dos pecados que jamais saberia ter cometido.
ABSOLVIÇÃO

Seu texto instiga a saber mais dessa personagem sem memórias e com um passado de culpa. Já quero ler o que mais vier dela! 😉
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