Sobre a dificuldade de flertar 

Que frase é gatilho para um comportamento feminino amoroso?

Os homens acreditam que há uma palavra mágica, um abracadabra. Eu conheço algumas frases que ajudam a lubrificar as juntas gastas das relações.

“Eu lavo a louça, pode ir fazer as unhas!”
“Deixa que eu pego as crianças na escola”
“Quer uma massagem nos pés?”
“Eu te amo do jeito que você é.” (Minha favorita!)

Depois de alguns anos de relacionamento, ouvir essas frases dá um calor na alma que me faz ter certeza de que todas as minhas escolhas foram certas. (Esqueçam a massagem no pé, essa sou eu que peço. Mas se ele ofertar, não recuso, e sempre tem beijo apaixonado depois.)

E no início do relacionamento, quais palavras mágicas fariam uma mulher se derreter por um parceiro/a amoroso (ou pelo menos querer conhecê-lo)?

Minha irmã (culpada por muitos dos meus vícios) me apresentou os realities shows de relacionamento: casamento às cegas, casamento à indiana, solteiros e desesperados na Coreia, e por aí vai. Parece que em todo canto do mundo alguém procura pelo amor e dá com os burros n’agua.

Todos esses programas tem algo em comum. Para que as pessoas se apaixonem, fazem experiências imersivas. Adivinha a primeira coisa que perdem (além da vergonha da exposição)? O celular.

Não vou demonizar meu gadjet favorito.  No entanto, não posso deixar de notar que o celular nos distrai facilmente de quem está a nossa frente. Quando me pergunto o que houve nessas gerações um tiquinho mais novas que eu, que não conseguem se relacionar amorosamente com outrem, uma lâmpada aparece no cérebro e eu digo para mim mesma que “não pode ser isso”. Será?

Conversando com um amigo psicólogo, ele me diz que faltam as habilidades sociais para tal. Ligo um alerta! Habilidade se treina, não é? Sou habilitada a dirigir, habilitada a desenhar, habilmente consigo decorar um poema. Onde está faltando o treinamento social, a dita habilidade?

Eu tenho uma teoria, sem nenhuma base científica, óbvio. Ela se fundamenta nas histórias que escuto com atenção. E o que as pessoas me contam, revela muito sobre elas.

Há um medo que suplanta o desejo, que se sobrepõe a toda e qualquer habilidade que a pessoa desenvolva: o medo da rejeição. Ser a segunda opção, ou a última escolha, fere nossos egos frágeis.

Tomadas por esse sentimento, montam seus sistemas de detecção de ameaças, que é tipo o controle da Casa Branca para não deixar os inimigos passarem (mas não era pra ser parceiro/a amoroso?). Com seus soldados a postos, o rosto enrijecido pela seriedade que o momento do confronto evoca, afastam qualquer intruso antes mesmo de saber o que essa pessoa traria para suas vidas.

Tem solução para isso? Tem. Implica em baixar a guarda e acreditar, numa época em que parecemos cada vez mais plastificados, pasteurizados, filtrados por luz e cores falsas, etc e tal. Acreditar implica em confiar, e a gente tem tantas provas que as pessoas que confiam se dão mal, não é? Nem sempre! Mas, se você está no time dos incrédulos, tente o próximo parágrafo.

Essa é mais fácil do que parece, não necessariamente vai te trazer a pessoa amada, mas te ajudará a treinar aquela habilidade social que anda em falta. Meu conselho? Faça um esporte coletivo.

Esportes coletivos nos transformam em seres sociais. Colaborar com um grupo, fazer parte de algo que é maior que você, te ensina a ganhar e a perder, ou a palavra dos últimos anos, resiliência. O esporte te faz ter foco no momento presente, tira sua cara dessa tela colorida e de imagens de pessoas perfeitas e bronzeadas artificialmente para parecer que estão num pôr do sol nas Bahamas. Implica em confiar, em última instância – ou em primeira.

Esporte coletivo e flerte tem os mesmos disparadores de humor, diz meu amigo psicólogo, só que sem o sexo! Vale futebol, vôlei, basquete, tênis de mesa ou carteado. Você começa com o esporte, que te traz um bem enorme para a saúde, e depois estica esse momento para um suco, uma cerveja ou churrasco. Esses encontros são um bálsamo nos dias corridos.

Em resumo, é você, sem o celular, confiando em outras pessoas, vivendo no presente.

Pra finalizar, uma frase que meu amigo  compartilhou um dia numa roda de conversa que levo comigo: escolha o seu desconforto. Fazer exercício é dolorido, ser sedentário também. Flertar é desconfortável, estar sozinho também. 

Bora treinar?

Publicado por Elaine Resende

Elaine Resende é arquiteta, doutora em engenharia civil e escritora. Contribui nos blogs Sabático Literário, Coletivo Escreviventes, Escritor Brasileiro e Mulherio das Letras Ceará. Autora dos livros A Professora da Lua e a Princesa Dourada e o Mandacaru Mágico, ficou em segundo lugar estadual no prêmio Talentos APCEF e participou de diversas antologias. Seu perfil no Instagram @cria.elaineresende traz resenhas de livros e filmes, alguns textos e pensamentos. No canal do YT @Lendodetudoumpouco discute literatura. É carioca e vive com o marido, dois filhos e seus cães Apolo e Byron.

7 comentários em “Sobre a dificuldade de flertar 

  1. Oi, Elaine, escritora que admiro. Parabéns pelo ensaio. Sua escrita é tão fluente, bem encadeada, cadenciada e de muita lucidez e leveza. Um beijo, querida. Obrigada por compartilhar.

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  2. Adorei seu ensaio sobre o flerte e que também é sobre confiar, se arriscar, se permitir… Para os que conheço e que são mais conservadores, sempre digo que ao se arriscar você até pode se decepcionar mas, se não o fizer, nunca experimentará o novo, que pode ser o que você tanto procura. Adorei também a menção à escolha pelo tipo de desconforto que a gente precisa encarar. Parabéns pelo texto!

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    1. Obrigada, Lidi! Achei que tinha respondido a vc, e sim, concordo em tudo. Amar, mudar de emprego, se exercitar, tudo tem um certo risco. Estamos caminhando para uma sociedade avessa ao risco? Será isso?
      Tb refleti um pouco sobre nossa forma de viver que me lembra um supermercado: queremos o melhor produto da prateleira, e se aquele não servir, descartamos pq tem outro. Obrigada pelo comentário e por suscitar ideias! ❤️

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