Os outros

Eles me distraíram pelo caminho

Me fizeram querer ser como eles

Me fizeram aprender sua língua

Arrancando-me a minha

Rezar sua reza e amar seu Deus

Abandonando os meus

Celebrar seus costumes e sua cultura

Suas conquistas e vitórias

Fizeram-me acreditar em sua história

Ensinaram-me a ter vergonha de ser quem sou

Apagaram meu passado para que eu não pudesse olhar para trás

Disseram-me que o mal habitava meu corpo

Minha cor

Meus cabelos

Minha dança

Minha fala
Minha alma

Eles arrancaram-me tudo

Ensinaram-me a ter medo

Queimaram minhas raízes

Feriram meus ancestrais

Calaram meu povo com sua língua estrangeira

Violenta e sangrenta

Tomaram nossa terra, nosso lar
Violaram nossos corpos

Mataram nossas famílias

Derramaram e beberam nosso sangue

Alimentaram-se de nossa dor

Eles me distraíram pelo caminho

Um dia quis ser como eles

Mas tudo o que encontrei era vazio e escuro

Perdi-me de mim e não me encontrei ali

Onde não havia ancestrais para honrar

Caminho para trilhar

História e lutas das quais pudesse me orgulhar

Imagina só como deve doer

Ser parte de uma árvore cujas raízes se alimentam de dor e sangue

Que são erva daninha que explora, violenta e mata

E carregar por tantas vidas

O preço do sofrimento causado, de todo sangue derramado

Não. Eu não quero ser como eles.

Eu não quero carregar a escuridão que carregam.
Eu não quero dormir e acordar ouvindo gritos de dor e agonia.

Eu não quero pertencer às árvores das folhas de ouro
Com raízes e troncos
Banhados de sangue e crueldade.

Eu quero ser comunhão com minha natureza

Honrar minha terra e meus irmãos

Quero caminhar de mãos dadas e curar-me junto do meu povo

Quero encontrar minhas raízes e ter para onde voltar

Eu quero ser semente que renasce em amor mesmo depois das queimadas

Eu não quero ser como eles
E escolho morrer dez vidas no açoite A matar no açoite um irmão.

Texto de @pensaescrevefala

Publicado por Elizabeth Gomes

Aprendiz e sonhadora. Humanista e feminista. Entusiasta do amor, da igualdade e da justiça social. Dona de mim e autora de minha própria história, sou tantas quantas quiser ser até o dia de não ser mais nada. Até lá, sou pura vida.

2 comentários em “Os outros

  1. Oi, Elizabeth querida! Seu texto pungente dá voz a muitos dos humanos que têm a consciência de que as partes fazem o todo, e que a consciência ainda é a raiz do bom e belo. Parabéns! Obrigada por compartilhar. Um beijo

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