A “mãe especialista” e a “mãe profissional”

                Estou fazendo um curso de especialização em engenharia. Passado mais de um ano em que dediquei muitas horas dos meus fins de semana às aulas, estou na reta final, prestes a receber um título de especialista. Apesar do curso quase em conclusão, ainda falta experiência prática nessa área do curso para que eu realmente possa me considerar uma especialista. Ou seja, não basta um certificado.

                Ao longo da vida e independente de educação formal, cursos feitos e títulos recebidos, a gente acaba mergulhando em assuntos os mais diversos, quer seja por necessidade, pela fase da vida em que nos encontramos ou simplesmente por um interesse novo, ainda que fugaz e nem sempre tão útil.  E de tanto lermos ou falarmos sobre determinada coisa (e a internet democratiza muito o acesso à informação – de qualidade ou não), acabamos virando “especialistas” em quase tudo, ou, dependendo da superficialidade, especialistas em nada.

                Quando Bia nasceu e eu nada entendia de bebês, devorei “A Vida do Bebê”, do autor Dr. Rinaldo de Lamare, um clássico sobre o universo dos bebês. Ele me fora emprestado e eu o consultava frequentemente nas diversas fases dela quando bem pequena. Afugentava alguns palpites insistentes das avós com os quais eu não concordava, dizendo: “o De Lamare diz que é assim ou assado, etc”. Elas, que não tinham tido esse suporte na época delas, se conformavam quando eu jogava em seus colos a sapiência do pediatra famoso. As avós tinham uma experiência fantástica e da qual eu me socorria diversas vezes mas, em alguns momentos, insistiam para que eu replicasse coisas que eu entendia que não eram mais adequadas. Virei uma “especialista” em “De Lamare” com estágio prático com a cobaia Bia. Quando Bebel nasceu, achei que ia lançar mão do meu certificado imaginário em De Lamare e saber fazer tudo de olhos fechados. À essa altura, eu já tinha devolvido o livro emprestado que consultara anos atrás e, na primeira semana de vida dela, corri para comprar um exemplar atualizado porque fiquei em pânico com a bebezinha filha do mesmo pai e da mesma mãe e que era completamente diferente da irmã, desde sempre.

                Quando os filhos são pequenos, sabemos de cor quais os desenhos animados, músicas e personagens preferidos deles. Se estivermos em qualquer lugar e tocar a música, seríamos capazes até de sair fazendo a coreografia com perfeição. De certa forma, quando mergulhamos nos universos deles, também estamos nos conectando com eles por meio do compartilhamento desses interesses. E como ficam felizes quando a gente entende o que dizem sobre determinados assuntos! Tive essa experiência com ambas. Com minha caçula, por exemplo, em minha imersão no universo da cultura japonesa, vendo mangás, assistindo animes e providenciando roupas e perucas para que ela fizesse cosplay de seus personagens favoritos. Recordo quando virei “especialista” na trilogia de livros (e depois de filmes) “Jogos Vorazes”, da autora Suzanne Collins. Bia, aos doze anos, se apaixonou pelos livros e insistiu até que eu também os lesse. Daí, quando cada um dos filmes inspirados nos livros era lançado, estávamos nós juntas no cinema, trocando olhares de quem sabia cada detalhe da história. Foi assim também com vários outros livros e histórias, também com músicas na adolescência e as idas a shows de bandas do gosto delas… Quando olho para trás e vejo todas as memórias que construímos juntas nessas conexões, sinto que valeu muito a pena. E que cada momento desse é um tijolinho que a gente vai construindo nessa relação tão imbricada que é a de mãe e filha.

                Aprendi sobre judô quando Bia começou a praticar e competir, chegando até à faixa marrom aos catorze anos. Adquiri um livro escrito por Jigoro Kano, o fundador do judô, e aprendi um pouco da filosofia por trás da arte marcial e a nomenclatura dos termos e golpes. Se tinha uma competição e o juiz fosse injusto com a Bia, lá estava eu para reclamar porque achava que a falta apontada não procedia. E se a luta estava empatada e os juízes iriam decidir o vencedor punindo o adversário por falta de combatividade, eu estava vigilante, de olhos arregalados e respiração suspensa para ver o veredicto e concordar com ele ou não. Normalmente, minha opinião pouco importava para o juiz. Mas, para ela, sentir e saber que eu estava imersa naquele universo, certamente deveria fazer diferença. Viajamos algumas vezes para que ela competisse e fomos até voluntárias na organização de competições na nossa cidade. De tanto acompanhá-la no judô, o qual também foi inserido na vida da caçula, eu comecei a praticar também. Após as provas para mudança de faixa, o judoca a recebe das mãos de um judoca mais experiente (mais graduado, na linguagem do judô). Nas poucas faixas mais graduadas que obtive, quem me entregava na cerimônia era a judoca Bia, mais experiente e mais graduada que eu. No dojo (tatame, em japonês), ela era a especialista de verdade. Eu era tão somente uma “mãe especialista” no judô das filhas.

De certa forma, quando compartilho (e vivo) os mesmos interesses nessas fases delas, é como se estivesse eu a viver de novo um pouco da infância e da adolescência, assim como quis dizer Érico Veríssimo com seu livro “As Aventuras de Tibicuera”. Nele, o autor traz histórias contadas por um indiozinho no Brasil desde o “descobrimento”. O leitor fica intrigado como o mesmo índio pode viver por séculos sendo testemunha (e às vezes personagem) da história no Brasil. Mas, perdoem-me o spoiler, no fim, a gente descobre que o autor omitiu durante todo o livro que quem conta mesmo a história é o filho, depois o neto, depois o bisneto (e assim por diante) do Tibicuera. Para mim ficou a mensagem de que a gente “revive” por meio dos nossos filhos e também se eterniza com eles…

                Não pensem que por eu ser uma “mãe especialista”, ou seja, aquela que se conecta e se aprofunda em assuntos originalmente de interesse deles, eu não tenha interesses próprios. Pelo contrário. Já faz bastante tempo que eu rego todos os dias a porção independente que me faz ser quem eu sou, para além dessa condição que é a de ser mãe. Nesse regar-me a conta-gotas, eu cultivo a mulher que trabalha, que estuda, que ama os bichinhos de estimação, que escreve e chora à toa e que tem muitos outros interesses que as minhas meninas nem alcançam porque estão elas também ocupadas em construir as pessoas que são e que se tornarão.

Ainda que eu tenha me tornado “especialista de araque” em mais um monte de assunto, motivada por outras relações e situações, sem dúvidas que foi a maternidade que mais me empurrou a viver experiências com as quais eu sequer cogitara antes. E ainda que a maternidade exija que carreguemos uma responsabilidade imensa e que muito se utiliza da nossa energia, essa experiência fantástica nos descortina muitas possibilidades. O exercício da maternidade nos faz mais dinâmicas, receptivas e inclinadas a aprender o que for necessário para dar o suporte ou estabelecer com nossos filhos a conexão que precisamos ter com eles. Nem sempre conseguimos. E para as mães que podem contar com uma rede familiar de apoio ou com especialistas de verdade para as mais variadas necessidades da sua turma, as coisas ficam bem menos difíceis.

                Na adolescência, eu tinha um termo que usava para nominar as mães que não trabalhavam fora. Chamava-as de “mães profissionais” e achava que a vida dos filhos delas deveria ser mais fácil do que a minha que tinha que dividir a mãe também com o mundo do trabalho. A minha mãe trabalhava fora e, por isso, eu não a tinha o tempo todo comigo bem como precisava auxiliá-la em muitas tarefas domésticas porque ela precisava dividir conosco a sua carga para conseguir carregá-la. Isso me trouxe várias lições e, de certa forma, moldou a mulher e mãe que me tornei, igualmente trabalhadora. Hoje, sei que as vidas das “mães profissionais” e dos seus filhos não eram necessariamente mais fáceis que as nossas. Afinal, quantas das mães que não trabalhavam fora tinham essa condição por genuína vontade própria? Quantas delas não tiveram negado o direito de construir algo fora do mundo familiar por várias circunstâncias? E para quantas delas o não trabalhar representava não conseguir suprir as necessidades dos seus filhos? Da minha parte, não restou mágoa pelas escolhas que minha mãe trabalhadora fez e tudo que vivemos foi do jeito que foi e pronto. Definitivamente. Os caminhos escolhidos desde então, por ela e, depois, por mim, levaram-me a essa estrada cheia de rotas alternativas e escolhas tantas que eu nem conseguiria mais refazer o caminho de volta, se possível fosse, e que me conduziram até onde cheguei, com os louros e dores que me acompanharam. Minha mãe, professora de escola pública por muitos anos, também foi “mãe especialista” em costuras, em fantasias de carnaval, em fazer bonecas de pano e em curar com ervas e suas infusões. Eu sigo buscando e encontrando mais especialidades para explorar nessa caminhada que me é permitida trilhar. Por ora, estou “mãe especialista” em Enem (caçula) e em mercado de trabalho para futura arquiteta (primogênita).

13 comentários em “A “mãe especialista” e a “mãe profissional”

  1. Os filhos nos dão a chance de curar antigas feridas, entender um ponto de vista que nunca antes tentamos compreender e de experenciar a nossa infância por meio da infância deles. Amo muito todas as “especialidades” que eles me permitiram aprender. Seu texto me tocou muito! Parabéns por ser essa mãe que também é escritora e exemplo para duas mulheres.

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  2. Excelente, a maternidade foi a realização de um grande sonho, mas foi desafiador conciliar todas as obrigações, alias vem sendo, todos os dias aprendemos e ensinamos.😘😘

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  3. Ohhh Lidi tão linda a tua história através dela revivi memórias. Parabéns por ser uma mãe maravilhosa para as minhas princesas. Parabéns por ser mulher e não desistir dos seus próprios sonhos.

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  4. Cara Lidi… eu também me encontrei na sua crônica poética, … também me sinto uma mãe especialista… mesmo que a minha filha-mãe fosse bem mais experiente que eu…
    Só Deus sabe o que tive de aprender… aperfeiçoar, …
    Essa é a grande capacidade dos literatos : nos fazer percorrer os sentimentos descritos de forma tão prazerosa que adentramos nesses mares, de corpo e alma e nos reconhecemos, refletindo por dentro de suas perspectivas!!!
    Obrigada!

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  5. Antes esse envolvimento e comprometimento fossem frutos de uma obrigação compulsória, inerente à condição ser mãe ou pai, mas infelizmente não é, existe um componente ou mais de um que não estão disponíveis em prateleiras, cursos de especialização ou almanaques e livros – a vontade, a disponibilidade e a disposição pra adentrar esses mundos.

    Muitas vezes tratar as escolhas e atividades dos filhos como passageiras, “mais uma entre tantas”, é bem mais cômodo que ir junto, aprender e ajudar nessas escolhas.

    Por todos os ganhos de relacionamento que isso significa seu texto trás um quê de incômodo, de “como deveria ser”, uma vontadezinha de poder voltar no tempo, mesmo sabendo que cada um tem e aproveita as oportunidades de acordo com suas próprias histórias de vida, sem necessariamente precisarem ser cobrados por isso.

    Parabéns!!!

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