VADE- MÉCUM

(Jovina Benigno, destaque na Antologia “ +HUMOR” , Prêmio Selo Off Flip de Literatura 2023)

Poseidon, o caçula dos cinco, três dias sem vir em casa, ela lembra : “ filho quando cresce ganha asa”. – tivesse ele ao menos trabalhando, nem que fosse de arranjo, sem carta  assinada. dela as divindades não tinham do que reclamar : reza em dia, vela para o pai de santo, esmola para Iemanjá, conversa com os mortos, era ecumênica, –  valia tudo para um bom parto e para as crianças nascerem perfeitas – pelo menos de corpo – viverem sem fome e com saúde.

lembra a primeira barriga, na décima sexta passagem de ano, vendo os fogos no Aterro. na faxina do dia, casa de seu Gregório, notório em bondades e leituras, achou um livro amarelado, largado ao menosprezo. na capa acastanhada do compêndio: Mitologia Grega. ali viam-se figuras de homens e mulheres belos, esbeltos, fortes, bem caracterizados: caçadores, uns  com asas, músculos à mostra, machados e espadas às mãos  – as histórias devem ser melhores que novela e  face. minha santa das faxinas! que povo sarado e lindo nessa capa! não sou de roubar, tenho a alma é para Deus. seu Gregório, posso levar esse livro meio estragado para casa? – Sim, Cida, você já é  uma faxineira pai d´égua sem ler os Deuses Gregos, imagine lendo, respondeu  sorrindo o patrão.

Cida ansiava chegar em casa, ler o vade-mécum, que virou Bíblia, nem tão sagrada feito a do padre Porfírio, um quase reles humano, que lia por cima, sem explicar os  Evangelhos, tirava umas palavrinhas, sermão sem fundamento. e pedia mais esmola para terminar o pátio da Igreja, sei lá mais o quê.  até com cartão, carnê de pagamento e pix  podia-se pagar  o Dízimo. para ela a  fome era do livro. banho, nem  tomou quando chegou em casa, coisa primeira que fazia, deixando a luta do dia morrer no sabonete.

sentou-se na poltrona coberta de retalhos emendados, arremedo de manta, cores tantas nos quadrinhos ligados, agulha e linha. Descalçou as sandálias, bondade da irmã, e as jogou  num canto do cimento rachado e frio, atrás da porta de entrada: Cansaço não carece de cerimônia.  no avanço da leitura, pendia-se aos deuses, uma natureza entre Deus e gente.

Findou seu drama de dar nome às barrigas, só iria parir deuses e deusas, fosse um, fossem dez.  teve cinco: Atena, Apolo, Afrodite, Deméter e Poseidon, entregues a Deus e à Mitologia grega. Viciada na obra, ia menos à missa, faltava muitas vezes ao terreiro,  menos recebia passe no centro espírita, menos falar com os mortos, o dinheiro da faxina rendendo mais. Sentia-se enfim livre. Esperava Poseidon, ria imaginando suas travessias, tempestades e ventos. Nem saudades sentia. tinha-o no livro.

8 comentários em “VADE- MÉCUM

      1. Querida Lidiane, suas palavras me alegram e me honram, minha querida. Muito obrigada pelos incentivo e leitura. Um beijo grande, minha querida.

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  1. Querida Lidiane, suas palavras me alegram e me honram, minha querida. Muito obrigada pelos incentivo e leitura. Um beijo grande, minha querida.

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  2. Jovina, eu amei a Cida e seus filhos deuses gregos. E a tua poesia que se faz presente em cada cena me encanta demais. Ainda estou com essa frase ressoando em mim “deixando a luta do dia morrer no sabonete.” Uma prosa poética arrebatadora. Parabéns pelo texto e pelo destaque! Beijo grande

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