Agora
O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente do namorado… O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente do namorado…
O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente… Alice, Alice!
As imagens rodam como se toda minha vida passasse por mim em poucos segundos. Tudo flui misturado, como em um carrossel. Que mais parece uma pintura borrada…
Antes
Há dias olhava para aquele parque em frente a meu apartamento. Era uma daquelas diversões de bairro, com crianças pequenas, famílias, algodão doce, maçã do amor e ferrugem, muita ferrugem. Segurança não era a palavra mais apropriada para aquele lugar. Mas, mesmo assim, inocentes e soltos, todos pareciam se divertir. Da janela do nono andar, eu olhava solitária e curiosa todo aquele movimento. Bateu saudades de um tempo antigo, que de tão distante nem sei se vivi, ou se era apenas fruto do meu desejo inconsciente. Tomei coragem. Deixei para trás, na espreita da noite, marido e filhos.
Queria experimentar a sensação do carrossel e dos carrinhos, o sabor da pipoca doce, o sobe e desce do trem fantasma e da montanha russa. Tudo aquilo que a rotina da vida real não permitia. Sufocada pelo tempo e pelas tarefas, não havia espaço para a aventura, para o perigo de um parque com ferrugens, para brinquedos sem serventia prática, mas que faziam sorrir. Saí sem medo. Ia depois de muitos anos seguir o coração. Ele, somente ele, deveria ser nosso guia nessa vida de tantas obrigações. Mas muitas vezes acaba submetido aos imperativos de uma sociedade tão cheia de receios e preconceitos. Sentia-me um pouco culpada por precisar viver aquilo só. Mas sem medo, que isso não fazia parte do meu vocabulário. Era como se uma força maior me tomasse, puxando-me para aquilo que parecia ser destino.
Ao chegar ao parque, era como se todo um mundo novo se abrisse diante de meus olhos. Como em um palco, descoberto pela cortina do início de um espetáculo. Entre os artistas estavam pequeninos correndo, mães de primeira viagem nervosas, casais de namorados e amigos. Tudo parecia tão colorido e bonito! Como em um filme.
Provei minha pipoca tão desejada. E churros. Pirulito doce. Maçã do amor e cachorro-quente. Tomei refrigerante, suco e cerveja. Tudo aquilo que queria e um pouco mais. Sem censuras, sem preocupações, sem pensar em dieta. Corri para os brinquedos. Na autopista, experimentei o prazer de dirigir sem rumo. Pisei fundo, errei na curva, bati o carro. No trem fantasma, levei susto, dei gritos. No carrossel, rodei mil vezes! Era tanta alegria que mal cabia em mim.
Até que chegou o momento mais difícil: a montanha russa. Era a única que eu temia desde criança. Quando pequena, grudada na barra da saia da mãe, sempre chorava. Mas havia decidido enfrentá-la naquele dia. Era como se precisasse provar para mim mesma que sim, já sou grande, e posso andar.
Ao colocar os pés no carrinho, com o vento nos cabelos soltos, uma estranha e inédita sensação de liberdade me invadiu. Me comeu por dentro. Sim, essa era a verdadeira Alice: a que sai no meio da noite sem pedir licença, que come de tudo, que brinca por todo o parque, e que arrisca. Uma mulher corajosa em pele de menina levada. E me deixei levar pelo sobe e desce e os giros, muitos e muitos giros. A adrenalina era uma brisa leve, suave. Foi um breve momento mágico.
Até que, de cabeça para baixo, fiquei. A engrenagem ruiu.
Não sei por quanto tempo permaneci ali, travada pelo surrado cinto de proteção, as mãos firmes no carro. Lá de baixo, o terror de famílias preocupadas. Não havia ninguém pra mim. Por dentro, vozes ecoavam. Meu marido dizia: não falei que esse parque era inseguro! Minha mãe me acalmava: fica firme que já vamos descer. Senti-me uma irresponsável. Por que cargas d’água uma mulher de quarenta anos, em suas poucas horas
disponíveis de sono, antes do início de uma semana repleta de trabalho, resolve ir a um parque de ferrugens? Uma ânsia de vômito subiu a garganta. Era uma espécie de desespero. E com ele, as imagens.
Agora
O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente do namorado…
O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente do namorado… O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente… Alice, Alice!
As imagens rodam como se toda minha vida passasse por mim em poucos segundos. Tudo flui misturado, como em um carrossel ou como no alto de uma montanha russa enferrujada, que desde criança sempre tive medo de ir. Acho que era sexto sentido. Mas a tentação foi maior. E agora eu estou aqui, sozinha e paralisada. Arcando com as consequências de meus atos. E enfim, as gotas de suor escorrem pela ponta dos meus dedos.
O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente do namorado…
O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente do namorado… O sorriso da criança, o abraço da mãe, a piscina com os amigos, o resultado do concurso, o presente… Alice, Alice!
Uma voz me chama, mas não alcanço. Sinto-me tragada pela escuridão da noite. Caio. As imagens rodam como se toda minha vida passasse por mim em poucos segundos.
Tudo flui misturado, como em um carrossel. Que mais parece uma pintura borrada…
* Conto do livro Salto para o Desconhecido, de Carolina Pessôa. Disponível em: https://loja.editoralitteralux.com.br/salto-para-o-desconhecido
