Domingo passado foi Dia Internacional da Mulher, o celebrado, porém frequentemente incompreendido, 8 de março. Penso que há muito erramos na forma de comemorar essa data, especialmente desde que estratégias comerciais se apropriaram dela para transformá-la em mais uma ferramenta de marketing.
Entre as iniciativas mais desastrosas (ou toscas), em 2018 houve a rede de restaurantes que escalou apenas mulheres para trabalhar, afinal “era o dia delas”. Em 2017, em Curitiba, colocaram cílios nos semáforos para deixá-los “mais femininos”. Some-se a isso as clássicas flores e bombons. Nem vou citar o dia da beleza. Não, não é ruim ganhar flores e bombons, ou uma maquiagem bonita; o problema é quando acreditam que somos frágeis e que nossa luta pode ser tratada de maneira superficial.
A data foi oficializada pela ONU em 1975, mas já era celebrada desde o início do século XX. As condições de trabalho das mulheres naquela época eram muito precárias, e as trabalhadoras da Revolução Industrial reivindicavam melhorias e visibilidade para suas causas, ao lado das lutas dos demais trabalhadores. Alguns fatos foram decisivos na escolha dessa data.
Em 1909 ocorreu a passeata de aproximadamente quinze mil mulheres em Nova Iorque Em 1910 foi lançada a proposta da jornalista alemã Clara Zetkin para a criação de um dia dedicado à união das mulheres em defesa de seus direitos. Em 1911, um incêndio ocorrido em um fábrica em Nova Iorque matou 146 trabalhadores, sendo 125 mulheres. Em 1917, durante a Revolução Bolchevique, um protesto reuniu cerca de 90 mil mulheres contra a guerra e a fome.
A luta, que começou contra as jornadas exaustivas (16h de trabalho, 6 a 7 dias por semana) e pela igualdade de direitos entre os trabalhadores (mulheres historicamente ganhando menos que os homens), abraçou a causa de toda a população que ficou entregue a própria sorte por conta da guerra.
Atualmente na Rússia o dia 08 de março é feriado; na China, ao menos meia folga; nos EUA, fazem passeatas.
E no Brasil?
São diversas as manifestações por aqui. Mulheres se reúnem em passeatas nas grandes cidades. O governo também se manifesta. Este ano, a campanha focou na responsabilização dos homens no combate ao feminicídio. Os números são alarmantes, e depositar exclusivamente na mulher a responsabilidade por enfrentar a violência é, no mínimo, covarde.
Mesmo após mais de um século de luta, ainda pedimos justiça, igualdade de gênero, o fim da jornada 6×1 e punição efetiva para agressores. Parece que avançamos pouco e, de fato, avançamos. No mundo corporativo, por exemplo, a presença de mulheres em cargos de liderança ainda é mínima. Uma pesquisa do Insper intitulada Panorama Mulheres 2025, concluiu que, no ritmo atual, a paridade de gênero levaria mais de 160 anos para ser alcançada. No que nos diferenciamos das nossas companheiras do início do século? Hoje temos voz.
A força da mulher revolucionária é o que sustenta o 8 de março. Suas raízes estão no comunismo e no socialismo. E a cada vez que um governo conservador assume o poder, enfrentamos retrocessos na luta. Como diria Foucault: onde há poder, há resistência. Que possamos lembrar de todas que nos antecederam e celebrar esta data com o respeito e a dignidade que seu significado exige. Sigamos sendo resistência. Sejamos revolução.
