Estou viva!

Alice entra na igreja, andando bem devagar, como uma criança que ainda não sabe direito o que está fazendo. Aquele é um território estranho para ela. As duas se encaram.

– Parece que já te conheço – diz Lia.

– Sou só uma mulher andando pelo mundo. Uma mulher que não tem nada demais. Mas que já sofreu muito de várias formas diferentes em todos os quesitos da vida. Mas no amor parece que fui pior. Sofri e fiz sofrer. Amei demais.

– Então, você, é parecida comigo menina. Te olho, e vejo um pouco do que fui ontem. Mas fica tranquila, toda essa dor, essa tristeza, tudo isso passa.

A voz de Lia ecoa pela igreja. Então, ela tira um cordão do pescoço, com um pingente de uma flor de lótus, e coloca em Alice, enquanto diz. “É só um mimo”. E sai.

Alice se vê sozinha diante do altar. E aproveita o silêncio do espaço. Não sabe rezar, mas sente uma estranha paz ali. De repente, como em uma miragem, uma flor de lótus como a do pingente vai se formando aos poucos, acima dos santos. Agora, além de ouvir, será que Alice também via imagens de outro mundo?

A flor de lótus vai sendo montada aos poucos, como em uma tatuagem. E Alice se lembra da sua flor de lótus nas costas. Prende os cabelos. Demoradamente, nossa atenção se volta para a tatuagem dela. E aí toca Alive do Pearl Jam. É, realmente, muito doido essa música dentro de uma igreja, considerando que Alice nem conhece muito Pearl Jam, começou a ter contato a pouco tempo com a banda, apesar de ser um grupo antigo. Digamos que ela deixou de ver algumas coisas por uns anos.

Todos esses elementos de alguma forma mágica parecem se combinar. Igreja, lótus, Pearl Jam, Alice. É tudo uma misturada só, como tem sido a vida dela. A música deve ter entrado por causa da frase “ainda estou vivo”.

Alice se vira para frente com um olhar firme. Ao fundo, a flor de lótus se completa. Ela olha adiante como se estivesse cercada por uma grande plateia, que acompanha sua interpretação de atriz e seu texto de dramaturga. Que viagem doida! Engraçado que Alice sempre teve o sonho de representar e escrever. “É, tem sonhos que realmente nunca morrem”, pensa. Era como se ali, dentro daquela igreja, ela conseguisse realizar um pouquinho daquilo. E diz:

– Como viver? Como amar? Será que tudo se resume a trocas de calor, como na peça Arcádia? Foi pra aprender “isso” que cheguei até aqui? Foi pra aprender isso que cheguei até aqui? Será que eu consigo? Será que um dia vou amar e ser amada na mesma proporção?

Ou será que isso não existe, um sempre ama mais que o outro? Será que vou ter um amor sem fim? Ou será que acabaram as minhas chances?

A igreja não responde Alice. Ela segue refletindo, persistindo.

– “Mas como posso conseguir o saber do coração? Só poderás conseguir este saber vivendo plenamente a sua vida. Tu vives plenamente quando viver também aquilo que nunca viveste”. – Jung.

Será que ele é que estava certo? Será que o amor são apenas duas pessoas imperfeitas tentando viver o novo a cada dia, mesmo em meio às dificuldades, ao tédio, à rotina, ao cansaço? Será que é possível viver plenamente, e viver aquilo que nunca vivemos, com uma mesma pessoa,
toda a vida?

Ela então desafia a plateia imaginária.

– Vocês pensam que sabem a resposta, né? E ficam julgando! Vocês não sabem nada, ou se sabem, é muito pouco. Quem nunca fez uma merda, uma loucura por amor? Que atire a primeira pedra! Aposto que aí existe todo o tipo de caso, ou entre os amigos de vocês, ou na família de vocês. Ouvi falar de gente que se moveu de país atrás do amor. Ouvi falar de traição debaixo do mesmo teto. Ouvi falar até de crime passional! (tiros interrompem Alive).

Silêncio. Alice está com raiva. Muita raiva de si mesma e do mundo. Mas, ao mesmo tempo, tem um amor desesperado dentro de si. E corre pra frente como se fosse abraçar a plateia. Aquele abraço de quem não quer perder. Grande, forte e apertado.

Alive volta e toca em um volume que parece que vai ensurdecer. Alice tem que elevar a voz pra competir. E fala pra Deus, ou seja, lá quem for, e pra sua plateia também. Está no ápice da sua performance. The show must go on, como em Queen.

– EU TO AQUI HEIN. EU AINDA ESTOU VIVA, PORRA. ENTÃO, VIVA!

*trecho do livro À Beira da vida, o primeiro da autora Carolina Pessôa. Mais informações em: https://www.editoraguardiao.com.br/a-beira-da-vida

Publicado por Carol Pessôa

Jornalista, escritora e atriz. Autora dos livros À Beira da Vida, Salto para o Desconhecido, Amor e outras Histórias: contos para aquecer o coração, A Cápsula e Meu Canto.

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