Clarice contempla a tela iluminada do Escritec. O único lugar onde ainda consegue preservar algo de si mesma nesse mundo arrasado. Os dedos deslizam a caneta digital em rabiscos que se perdem na pouca luz:
— Vamos resistir… — O ar falhou por um segundo. —…juntos.
Pela janela empoeirada do bunker, ela observa a neblina amarelada misturar-se ao pó fino e seco. A rua soterrada pelas dunas. “Tudo que restou é um silêncio que consome… E eu aqui, presa ao que não quer mais existir.” Registra no Escritec o peso dessa promessa.
Na praça vazia, drones patrulham sem descanso. Os zumbidos se misturam ao assobio da poeira levada pelo vento. As luzes frias de um deles pulsam desconexas, como se travassem, parado acima da inusitada plantinha. “Um contraste de vida em um ambiente exaurido”, ela anota no Escritec.
O zumbido metálico soou irregular: “Plantio… proibido. Contaminação… radiação.”
Atônita, a jovem escritora vê o feixe de luz concentrado incinerar a plantinha
deixando no solo apenas um vestígio carbonizado.
— Mesmo no pouco que ainda resiste, eles ainda querem controlar. — Encara seu robozinho auxiliar inerte no carregador portátil no canto do bunker.
— Persistência é ineficiente. — As luzes amarelas de Data piscam desconexas,
lançando dúvidas não programadas. — Sobrevivência exige desapego.
Clarice aperta a caneta digital, a voz presa na garganta: ” Talvez esse apego seja o último fio que me prende a algo que já morreu.” A mão pesada quase danifica a tela do tablet.
Data responde, as luzes piscantes apagando:
— Em breve, esse fio também se romperá.
O silêncio que se segue pesa no ar.
Na estante torta que sustentava uns poucos livros amarelados, a voz distorcida no velho rádio emite fragmentos desconexos: “… resistência… adiar…sombra…fim…”
Os dedos trêmulos no Escritec tentam captar os sinais. Na tela, os pensamentos tomam forma: “restam vozes… quem as ouve?”… “não houver amanhã… pó do esquecimento.”
O rádio para de transmitir, acentuando o vazio do bunker. Clarice segura uma
pequena pedra coberta de musgo. Um pedaço do mundo antes do caos que ela fez questão de preservar. Um pedaço de verde que insistia em se espalhar desafiando o fim.
— Talvez nem floresça… — murmura. — Talvez seja o último gesto que resiste antes de tudo desabar. Ou o primeiro do fim.
Data permanece mudo, as luzes apagadas.
Lá fora, o zumbido crescente das sentinelas aéreas não deixa esquecer que o controle, implacável, não dava tréguas.
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