Escritec

No ano em que as cidades formavam um tapete de concreto, e o Sol se arrastava sobre um céu cinza, Clarice, escritora e apaixonada por plantas, inclinou-se sobre o canteiro no centro da praça que teimava em respirar. O pó fino do ar invadia seus pulmões, ao mesmo tempo que as dúvidas em sua cabeça.
— Bem, se essa plantinha sobreviver a mais uma semana nesse forno, prometo deixar o Escritec de lado um pouco. Só um pouco, tá? — disse a Data, que piscava suas luzinhas amarelas, como quem dizia “você acredita mesmo nisso?”
O Escritec, metade caderno, metade biblioteca, era seu refúgio de rabiscos e histórias inconclusas. Um pedaço do passado preservado no presente, sem internet nem distrações: a conexão havia sumido faz tempo.
No chão, ao lado, o rádio operacional, relíquia dos dias antes do fim, emitiu alertas anunciando a tempestade de areia iminente. Data acendeu a luzinha de advertência. Clarice tirou o chapéu de palha, enfeitado com folhas secas, sentiu o cheiro da terra quente e partiu, cambaleando, para a entrada do bunker.
Um tropeção e um tombo com direito a um “Ai, dessa vez doeu mesmo!”, ecoou pela praça vazia. O robozinho, com sua voz metálica, comentou, menos sarcástico do que de costume: “Queda detectada. Recomendo mais cuidado e menos teatralidade”.
Rindo, mais sem graça do que irritada, ela escovou, com as mãos, a poeira do
macacão de microfibra desgastado. Antes de fechar a pesada hermética, deteve-se nas folhas vulneráveis sob aquele sol enferrujado. Recomeçar esse mundo?, suspirou, deixando os ombros caírem. Não precisava ser nada muito radical. Só precisava de coragem para insistir e plantar um pé de esperança onde ninguém mais vê futuro.
Em seu recanto, enquanto Data permanecia em um silêncio mecânico, Clarice decidiu guardar suas ideias, mesmo tortas, para as plantas e, talvez, para o Escritec. Com o coração acelerado, segurou firme a caneta do tablet e sussurrou: “Vamos resistir… juntas”.

Publicado por Denise Gals

Denise Gals escreve no "Café à escrivaninha" sobre como se redescobrir após a meia-idade. É mediadora de clubes do livro e de rodas de leitura. Ah, sim, e ela também escreve romances.

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