Todo mundo tem alguma
Coisa pra se preocupar.
Um olho que tremilica.
Uma pereba pra cuidar.
Uma perna que chacoalha
E que nada faz parar.
Tem gente que tem coisa,
Que a gente nem vê de perto
Ziquizira e Urucubaca
Moléstia de nome incerto
Só benzedeira cura
Ao rezar o verso certo
E tem outras que padecem
Se tratar com um doutor
Doença moderna e chique
Hipertensão e o calor
A mulher na menopausa
Não larga o abanador
Mas se ler é o seu problema
Sempre há um jeitinho
Presbiopia, Miopia
Se pegar no comecinho
ainda dá pra remediar
O óculos é o caminho
Quis Deus que na velhice
O ser humano sabido
Ganhasse algo de bom
E de outro fosse perdido
Um dinheiro mesmo pouco
Pra viver bem destemido
Às vezes Ele nos presenteia
Com seu amor sem medida
A memória aos poucos se vai
A cabeça anda perdida
A dor no corpo se espalha
É o jeito de sentir a vida
Deus oferece sem saber
das letras miúdas o desver
desmemória do presente
Para a gente esquecer
Que a vida é brincadeira
E alguém tem que perder
Mas quem dera o Bom Senhor
Num contrato sem receio
Me oferecesse na hora a
Letra grande, sem defeito
Pode até ter paga alta
Se é pra enxergar, eu aceito
Não precisa tanto alento,
Nem promessa, nem louvor,
Só queria ler meus livros
Com prazer e com ardor,
Sem pedir ajuda a lente
Nem ao óculos salvador.
Se Ele ouvir minha prece,
Nem me olho no espelho
Pode levar meus dentes,
De que vale ter cabelo?
Mas, Senhor, ouça o que digo
A leitura é meu apelo.

Salve a cultura nordestina!
Salve a grandiosa cultura do nosso país!
O cordel é complexo, comparável aos sonetos e outros formatos “do estrangeiro”. Que tenhamos mais textos tão lindos quanto esse.
Me senti dentro do texto, sofrendo a mesma inquietação.
CurtirCurtir