O sobressalto. De novo. São sete e quarenta e nove. Por que estou com medo mesmo? Ah, lembrei. Poxa, hoje é sábado. Poderia dormir mais, até acabar o sono. É feriado prolongado. O dia em que eu ia emendar nesse feriado e abater do meu banco de horas… melhor não folgar. Esse trabalho tem que dar certo. Mas o que é melhor eu fazer? Inspira, expira, inspira, expira, inspira, pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome. Eu devia ter mandado aquele e-mail antes. Se fosse outra pessoa, o teria mandado. Mas foi melhor que eu checasse as informações antes. Isso é comparação. Não se compare. Você é competente. Você é ágil. Você é inteligente. Inspira, um, dois, expira, um, dois, inspira, um, dois, expira um dois. Melhor ouvir uma meditação guiada. Não, melhor levantar. Fazer as coisas para não me atrasar. Que pena. Há alguns meses, não sou quem eu verdadeiramente sou: a energia está tão baixa. Tem dias que me sinto prostrada. As brincadeiras bobas, as piadas infames, não existem mais. Quando estou com as meninas, quero falar as bobagens que me vêm à cabeça, mas a vontade de ficar quieta é maior. Reaje! Vai, levanta! Quando esse trabalho terminar, eu serei mais feliz. Será? Ou vou substitui-lo por outra preocupação? Melhor anotar e levar para a sessão de terapia na quinta. Acho que vou tomar café na padaria… essas padarias aqui são tão caras. O que eu estava fazendo mesmo? Não, não era isso. Concentra no agora. “A docilidade dominado é o sorriso do dominante.” A quem interessa o estoicismo no mundo corporativo? Essa é uma boa reflexão. Preciso me impor mais. Esqueci de comprar a bolsa para levar à piscina. Qual era o endereço? Mas a vida não é só trabalho. Preciso cuidar das outras dimensões dela, são tão importantes quanto a minha carreira. O dia está lindo! Vou mandar mensagem para a amiga do Porto. Ela me ajudou tanto quando me separei. E tenho que comprar a passagem para ir visitar a família. Daqui a pouco, vão esquecer da minha cara. Preciso ir lá, atualizar o reconhecimento facial. Mas estou indo para o Flamengo, por que estamos na Nossa Senhora de Copacabana? Concentra no trajeto porque esse motorista está perdido. Não posso esquecer de comprar o gin quando chegar. E uns petiscos.
De novo?
-Você deveria ter entrado à direita.
Desse jeito, vou chegar só depois que o sol de outono se esconder. Se pelo menos eu não tivesse… por que de manhã é mais difícil? Inspira, expira, inspira, expira, inspira. I may be a fool, but till then, darling, you’ll never see me complain. Concentra no trajeto.
-Pode parar aqui mesmo.
Acho que o preservativo saiu. Ele disse que não. Por que ele mentiria nesse caso? Se tivesse saído, você saberia. Será que o contato externo dos fluidos é perigoso? Ai, para! É muita neura para uma cabecinha só. Queria, pelo menos, me soltar mais e aproveitar melhor esses momentos, já que ele só quer sexo mesmo. Nada de atenção. Por que permito isso? Minha mãe não me achou no lixo. Mas parece que é pra lá que me jogo quando não dou um basta nessa situação. Lembra: o que sinto pela pessoa é menos importante do que a maneira como ela me faz sentir.
-Bom dia, vai ser no débito.
Eu vou morar aqui um dia. É minha meta. Estou jogando para o universo. Aliás, vou fazer hoje aqueles cálculos para sair logo o divórcio. Já demorei muito para resolver isso. Olha você se julgando de novo. E estou me julgando por estar me julgando. Meu Deus, que cheiro horroroso! E a Renata não respondeu minhas mensagens. Acho que ela está chateada comigo.
-Bom dia! Sim, a Mariana liberou minha entrada.
E se eu encontrar o carinha do aplicativo por aqui? Sem maquiagem, descabelada. Estou só o rascunho do inferno. Espero que eu não o encontre. O que adianta beijar bem se a promessa para um próximo encontro é um “a gente vai se falando”? E a cereja do bolo: quero entrar em um relacionamento só depois que me autoconhecer. Ah, vai pro inferno!
-Oi, meninas!

Dançarina do acaso, buscando improvisos na coreografia sincopada da vida. Escritora de si mesma, para dar vazão ao que transborda da mente e do coração. Teima em sonhar, mesmo com os descompassos do cotidiano.
