As tias

Não sei como são as tias de vocês, mas as minhas são encantadas.

Tenho três tias por parte de mãe, a parte mais chegada da família. A família por parte de pai é outra história, que posso contar mais adiante. Mas, o foco aqui são as tias mais próximas, que me acompanham mais de perto, desde que eu nasci, no século passado. 

Tias são uma espécie de entidade. Elas te amam e cuidam, mas também brincam e em alguns momentos até transgridem as regras. E são divertidas. Ah, como são… Cada uma com suas particularidades. Características que herdamos pela prosa e pelo exemplo. 

Como minha mãe trabalhava fora, minha tia mais jovem ficava comigo e com a minha irmã durante a semana. Ela estudava à noite e aos finais de semana ia pra casa. Para mim ela era pura alegria! Uma docilidade coroada pelas margaridas que ela gostava de por nos cabelos. Era meio hippie, meio menina. Uma lindeza! Lembro das tardes na cozinha, experimentando novas receitas: teve churros, pipocas temperadas e bolos de todos os tipos. Fazíamos festas de aniversário para as bonecas. Uma farra compartilhada com outras meninas da vizinhança. Hoje percebo o quão generosa ela foi conosco e o quanto aprendi sobre feminilidade, sobre amor, sobre a magia da vida. Tudo tinha um toque especial. O gato dela usava um laço de fita de cetim no pescoço e tudo o que ela fazia, me parecia encantado e belo. Com ela também aprendi o que era namorar, e acompanhei suas paixonites da juventude. E, quando ela casou, tive o prazer de ajudar a arrumar seu ninho de amor.

Minha família é multiétnica. Puro suco da mistura de povos que resultou na população brasileira. Uma espécie de microcosmo do Censo. Temos loiros, morenos, ruivos e sararás. Cabelos de lisos aos mais enroladinhos, olhos azuis, verdes, mel, castanhos e pretos. A cada gravidez vem a curiosidade: como será esse novo integrante? A quem irá “puxar”?

Toda essa introdução é para explicar que, a mais encantada de todas as tias, é a mais diferente: nasceu ruiva e foi adquirindo sardas ao longo da vida. Além de também ser um doce, é uma das pessoas mais alegres que já conheci. Sempre sorridente e de bem com a vida. A dona das melhores histórias e aventuras. A mais moleca, que me ensinou a subir em árvore, comer fruta direto do pé. Um ser livre que me ensinou que a vida pode ser boa. E é. 

Ela era tão livre, que voava. Sim. Eu tenho uma tia que voava! Pequenas distâncias, mas voava. Cresci com esse encanto, e a certeza de que podemos e podemos muito. Basta acreditar e se jogar. Amava passar uns dias na casa dela, depois que casou e teve filhos. Lá a diversão era garantida. Passávamos dias e noites brincando, imitando chacretes e cantoras, enquanto meu tio tocava violão. Era comum fazer um bolo à meia noite e esperar esfriar para comê-lo no meio da madrugada. Lá a regra era outra: ser feliz e ponto.

As tias transmitem cultura, ensinam artesanato, criam e nos apresentam as tradições da família. Com elas aprendi o que fazer e o que não fazer. 

Esse ano fiquei muito feliz quando meu filho me disse que pediu apoio da tia, a minha irmã, para resolver um problema. E espero que meu sobrinho saiba que pode contar com a tia aqui.

Tias são encantadas, são acolhimento. Tias são pura simpaTIA. Sim, pras tias!!!

4 comentários em “As tias

  1. Que delicia de texto! Me deu vontade de escrever sobre minhas tias maternas, que até hoje me acompanham. São meu núcleo forte. Eu também tive uma tia mais nova que morou na minha casa e ajudou a cuidar de mim. Foi uma grande referência. E até hoje somos muito unidas, cúmplices. Continue compartilhando essas dores e delicias da vida… acompanharei por aqui. Quem sabe virá um lindo livro hein?

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  2. Seu texto me transportou para um passado querido, com minhas tias, irmãs da minha mãe, lá nas férias inesquecíveis na Bahia. Obrigada, Alessandra, por compartilhar suas memórias afetivas, que evocaram as minhas, que estavam meio esquecidas. Grande oportunidade será reunir seus textos num livro, hein?

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