As crianças na escola ao lado ensaiam a quadrilha.
Não as vejo. Mas sei que estão lá. Pelo som.
É quase junho.
Não sei se faz sol ou chove.
Minha confusão mental.
A velocidade vertiginosa das exigências corporativas.
Neste apartamento, o toque do Teams.
Na escola, Gilberto Gil, Andar com Fé, gritos, palmas
O comando da professora ao microfone
“Ummmmmmmm”. As crianças entendem o comando. Eu não. Palmas.
A escola é franco-brasileira.
Nada barata. Mas ainda assim não de elite. Classe média alta.
Penso que os pais ficarão felizes ao ver a apresentação, os filhos.
Pais que, como eu, a esta hora, dançam outro tipo de quadrilha, em algum escritório ou home office. Qualquer.
Comandam ou são comandados?
Sofrem? Ou fazem alguém sofrer?
Normal.
Os empregos são todos iguais.
É um pior que o outro.
Não tem eldorado.
Assim como não tem príncipe encantado.
Pote de ouro ao fim do arco-íris.
Coelhinho da Páscoa.
Papai Noel.
Só as festas. De todas esses coisas que não existem.
Caipira existe.
Existe?
As crianças parecem se divertir.
Às vezes suspendem a música no meio. Então, acho que não deu certo. Teve esporro?
O-RI-EN-TA-ÇÕES
Lembro de mim, pequena, introvertida, corcunda na foto do jornal da escola.
Corcunda aos nove anos que nem meu pai.
Meu pai que só me ama se eu não pedir dinheiro a ele.
Meu pai não me ama.
E eu odiava festa junina.
Não tenho dúvidas de que alguma criança ali também está a sofrer.
CA-LA-DA
O mundo pré-formatado não tem espaço para nós, criança.
Está chegando junho. Andem, andem, temos que dançar quadrilha. Fazer festa. Junina. Mostrar para os seus pais como o dinheiro deles tem sido bem gasto aqui.
Dancem, dancem.
Porque, muito em breve, vocês nunca mais vão dançar. Ainda mais com um par.
Alegrem-se, alegrem-se.
Porque muito em breve este artigo, a alegria, será raro.
Sincronizem os movimentos, porque já já quero vocês aqui, sob meu jugo, trabalhando como um time, mesmo se odiando, fingindo alegria.
SORRIAM,
É tudo um treinamento, no final das contas.
O sinal da escola, o apito da fábrica, agora o Teams.
O bedel.
O professor.
O diretor.
Os colegas.
Os amigos.
O poder coercitivo.
E no meio….
Nós.
Nós?
Franco-brasileiro
