Deixe a correnteza levar

O sol empurrou para longe o aguaceiro do dia anterior. Mas eu sabia: aquele céu limpo era só um intervalo. Chuva de verão sempre volta. Enquanto me arrumava para levar a filha ao colégio, vesti o meu uniforme de carioca despreocupada: short jeans, blusa sem mangas e chinelos de dedos.

A sombrinha dobrável foi um impulso de última hora. Não que me importasse em chegar molhada, mas havia os olhares das outras mães. Impecáveis, como se a chuva respeitasse compromissos.

Na metade do caminho, a água desabou sem aviso. O vento ameaçava virar o
guarda-chuva do avesso. Minha filha, de capa vermelha transparente, parecia uma pequena aventureira. Ria enquanto segurava o capuz inflado por cima dos cachos. Quem me dera enfrentar o mundo com essa leveza.

Enquanto caminhávamos, tudo parecia se dissolver em água: o homem apressado segurando a pasta encharcada; a senhora equilibrando sacolas e guarda-chuva; crianças rindo e pulando nas poças. Cada um lidava com a chuvarada à sua maneira. E eu? Arrastava meus chinelos escorregadios e tentava não pensar no desconforto da roupa grudando na pele.

Quando faltavam poucos metros até o portão da escola, meu pé afundou em uma poça disfarçada de buraco. O chinelo ficou para trás. Minha filha gargalhou alto ao me ver equilibrando-me em uma perna só: “Mãe-saci!” Eu ri também, mas por dentro uma irritação crescente. A sombrinha escorria água pelo meu rosto como se quisesse apagar os últimos resquícios de paciência.

Estranho… Nada de carros em fila dupla ou crianças uniformizadas correndo pela calçada em frente à escola. O portão estava fechado, trancado com cadeado. Apertei a campainha e espiei pelas grades enquanto o porteiro se aproximava devagar.

— Não viu o aviso no grupo da escola? — apontou para o celular. — Cancelaram as aulas por causa da previsão de tempestade.

Fiquei ali parada, sem saber se ria ou gritava. As mensagens no grupo… Sempre as mesmas: mães exibindo as conquistas dos filhos como troféus. Qualquer coisa importante se perdia no meio daquela enxurrada de palavras.

Minha filha olhou para mim por baixo do capuz vermelho, as sobrancelhas erguidas em triunfo silencioso: “Eu sabia que ia dar errado.” Um sorrisinho maroto escapou no canto da boca.

Suspirei fundo e engoli o palavrão que subia pela garganta. Um táxi passou direto por nós, levantando uma onda que nos fez recuar para o canto da calçada. A água fria e lamacenta escorreu pelas minhas pernas enquanto eu tentava decidir o que fazer a seguir.

— Pelo menos não tem dever de casa hoje — ela disse, com aquela sabedoria
infantil que só as crianças têm.

Fitei-a por um instante, e algo dentro de mim desmoronou — não a frustração, nem o cansaço, mas talvez aquele peso invisível que carregamos sem perceber. Dei uma gargalhada. O som se perdeu no barulho da chuva. Toquei-lhe a ponta do nariz gelado com meu dedo enrugado. Ela sorriu, como se soubesse que eu havia aprendido algo que ela já sabia há tempos.

— Vamos? — perguntei.

Ela apertou minha mão com força. Atravessamos a rua em direção à lanchonete da esquina. O chinelo perdido ficou para trás, junto com a escola vazia. Só a chuva incessante insistia em cair sobre nós.

Publicado por Denise Gals

Denise Gals escreve no "Café à escrivaninha" sobre como se redescobrir após a meia-idade. É mediadora de clubes do livro e de rodas de leitura. Ah, sim, e ela também escreve romances.

Deixe um comentário