Ruas nuas

Saio pelas ruas nuas da cidade
Ruas tristes, sem vida
Onde estão as crianças correndo?
Onde estão as matriarcas nas janelas
vigiando as filhas das vizinhas e não suas filhas sempre castas?

Saio pelas ruas nuas do bairro
Com meu cachorro a passear
Só encontro carros  
E lixo em latões revirados
Pelas calçadas espalhados

Corpos estirados
Dormindo nas calçadas
Ruas tristes
Árvores cortadas
Fios emaranhados
Vidas emboladas
Encolhidas em suas casas

Corro pelas ruas
Todas nuas
Sem gente

As árvores me falam  
Que o tempo passa devagar
Mas passa para todos
Para elas dias são como brisas
Passam levemente
Quando se dão conta
Estão diferentes
Uma hora frondosas
E noutras estão nuas
Como as ruas

Passeio pelas ruas
Pensando
Se alguém me observa
Como eu observo as coisas
Se alguém passa por essas ruas
Com o mesmo sentimento
De que estão nuas
Despidas da vida
Que outrora aqui passava

Ruas são as veias da cidade
Entupidas de carros,
vazias de amor

Onde estão os casais se beijando apoiados nos muros?
Pulsam lentamente
Reflexo de uma sociedade agonizante.

Salvemos as ruas.
Ocupemos as ruas!

Precisamos vestir as ruas de alegria
Preencher os espaços sociais
Convivência de diferentes
Ensinar crianças a pular amarelinha,
Brincar de garrafão e pique bandeira.
Bento-que-bento-é-o-frade!

Precisamos deixar a vida escorrer pelas ruas.

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