Envelhecer não acontece com o passar dos anos.
Pelo menos dentro da gente, envelhecer tem um tempo para querer acontecer. Pra dar as caras.
Chega de vez e assusta, transforma.
Assusta porque transforma.
Envelhecer causa estranheza em que tá dentro mais do que quem vê de fora.
A beleza, aquela já conhecida, faz que vai embora. A saúde cambaleia, tropeça e pede ajuda. A vida ganha contornos que hora se invertem, hora se reforçam.
Alguns caminhos se abrem e outros a gente fecha. Por escolha. Decisão.
Os desejos se expressam com força lá dentro e ganham nossa atenção. Mais gentileza e aceitação, menos desculpas e mais perdão.
A gente cresce que não cabe em si, naquela antiga definição. E fica amostrada e exibida, contemplante do processo e da renovação.
Envelhecer não retrata só os anos vividos, mas explora o que vem de novo, o que quer acontecer.
É a pressa dos passos firmes, do saber onde pisar, pra onde ir e para que ir. É um novo jeito de caminhar.
Tratar com leveza o que precisa de ajuste, e fazer do retoque um mantra, em sons de agradecimento e de prece.
É se amigar com a culpa, questioná-la ou entendê-la, mas se afastar da autocomiseração.
Envelhecer é calmaria diferente, redefinida. Carrega a potência de uma ebulição latente, que não apressa o tempo mas não quer perder a hora. Quer viver o agora.
É viver de, viver para, viver com, viver apesar e viver além.
Envelhecer sem se re-conhecer é quase morrer.
Olhar e não se ver por fora, ensina que é preciso mudar a direção do olhar, buscar o que vem de dentro, de onde tudo brota.
