Tivemos um dia de trabalho exaustivo. Eu e Paulo trabalhamos na mesma empresa, em equipes diferentes. A primeira vez que nossos olhares se cruzaram foi durante um almoço – daqueles bem barulhentos e desorganizados, onde todos falam, mas quase ninguém se escuta.
Era uma mesa enorme e eu cheguei atrasada. Todos já estavam sentados, e o único lugar disponível ficava bem em frente a ele. Fui me aproximando da cadeira e sentindo aquele olhar sobre mim, me escaneando em detalhes. Baixei os olhos, disse uma saudação discreta em volume baixo e me sentei. Não lembro muita coisa desse dia. Apenas a sensação de estar sendo avaliada por aquele homem que eu nunca tinha visto e não sabia o nome.
Entrei na empresa há meses, mas o trabalho em home office faz com que a gente desenvolva alguns relacionamentos sem nunca ver a outra pessoa, se ela assim desejar. Passamos a ser um nome numa lista, num e-mail. Apenas uma voz durante reuniões com a câmera fechada. As pessoas têm direito à privacidade, mas, ao menos uma vez, poderiam nos brindar com sua imagem e seu sorriso.
No nosso caso, isso não foi necessário, pois a empatia e a conexão foram imediatas. Eu, novata, precisava de ajuda para identificar o responsável por um novo projeto. Como não conhecia ainda as pessoas e suas funções, escolhi um nome ao acaso para me ajudar. O nome Paulo me chamou atenção por ser nome do meu primeiro namorado, meu primeiro amor. Nome que eu não pronunciava há anos, desde que nos separamos. Pensei que poderia ser uma pessoa agradável, mas depois percebi que eu apenas queria pronunciar aquele nome mais uma vez. A conversa, na verdade uma troca de palavras, foi objetiva, curta e por escrito. Não tive a chance de pronunciar o nome que me despertou saudades.
Embora tenha achado sua atitude muito seca, sempre que precisava de alguma ajuda eu recorria ao Paulo, que respondia de forma objetiva, mas a cada resposta, se mostrava mais simpático e divertido.
Um dia tomei coragem e abri minha câmera na esperança de que ele fosse recíproco. Aproveitei que eu estava bem vestida e maquiada e podia me mostrar para o colega misterioso sem passar vergonha. Quem trabalha em home office sabe dos perigos de abrir a câmera sem fazer uma verificação para confirmar que se está ao menos vestida e penteada. O mínimo para uma convivência respeitosa.
Ele não correspondeu à minha expectativa. Apenas usufruiu da minha imagem e me deixou ainda mais curiosa. Mas, ao menos escutei sua voz, que não me despertou mais curiosidades. Pelo contrário, me fez pensar que ele seria jovem demais.
Os dias foram correndo e o volume de trabalho aumentado. E as trocas de mensagem entre nós cresceu na mesma proporção. O tom estava cada vez mais descontraído e começamos a estabelecer uma amizade e até uma cumplicidade, pois estabelecemos uma rede de apoio entre nós, cada um colaborando com sua expertise. Eu com minhas habilidades de design e ele com sua intimidade com a tecnologia. Mas não passou disso. Até este almoço.
Passado um tempo da minha chegada, o homem que estava sentado à minha frente e que me observava insistentemente, me perguntou se eu não iria escolher o prato. Minha coluna gelou, a boca secou e a língua travou. Eu, que sou tagarela, não consegui emitir um som em resposta àquela pergunta. Não por não saber o que queria comer, mas por susto, vergonha e outro sentimento que não consegui identificar naquele momento. Euforia, talvez.
Era ele, o Paulo. E eu só consegui sorrir com o canto da boca e abaixar os olhos, mais uma vez.
Passei um tempo sem falar diretamente com ele, pois não conseguia encará-lo, pois eu queria observar cada centímetro daquele rosto anguloso, a abertura do sorriso e o brilho dos olhos. Quem desenha sabe como os detalhes são importantes. Mas eu temia que as outras pessoas descobrissem que, naquele momento, eu era um turbilhão de sentimentos duvidosos.
Finalmente, o almoço acabou e voltamos ao escritório. No caminho, na confusão de pessoas e risos, ele encostou em mim. O dorso da sua mão passou raspando no meu quadril por um segundo. O tempo necessário para riscar o desejo e acender todo o meu corpo. Fingi que não senti.
A tarde transcorreu normalmente, com a insensatez de uma equipe presa a um escritório. Cada um em sua mesa, todos vidrados em seus lap tops e com seus fones que os afastam ainda mais do mundo real e os faz afundar no virtual, apesar do corpo estar no presencial. O híbrido sem sentido.
Ao final do dia, meu chefe me encarrega de elaborar um projeto imenso e complexo. Sem opção, aceito. Mas imediatamente me preocupo, pois necessita de desenvolvimento tecnológico que não domino. Começo a fazer o trabalho e, de repente, me dou conta de que estou sozinha no escritório. A hora passou e todos foram embora.
Fecho tudo e corro para casa onde tomo um banho relaxante e preparo meu jantar, na companhia de meus gatos. Minha rotina é leve e gostosa. A música me acompanha pelas horas e as tarefas são realizadas cada uma em seu dia da semana correspondente. Tudo se encaixa e funciona.
Após eu e meus gatos estarmos alimentados e termos cumprido nossos rituais noturnos, resolvo revisar o novo projeto para planejar o dia seguinte de acordo com minhas novas necessidades. Assim que abro o lap top vejo a mensagem de Paulo. Toda a eloquência que nos faltou durante o almoço, no momento que finalmente estivemos frente a frete, estava presente nessa conversa noturna. E me dei conta de que era a primeira vez que nos falávamos fora do horário de expediente. Perguntei-me qual seria o motivo dele estar on-line, mas não tive coragem de verbalizar a dúvida e a guardei numa das quinhentas caixinhas abertas em minha cabeça.
Num determinado momento me deu conta de que Paulo poderia ter a solução para algumas questões do novo projeto que envolviam tecnologia. Tomei coragem e perguntei se ele poderia me ajudar, e ele prontamente se disponibilizou. Assim transcorreram dois dias com sessões pontuais de ajuda e conversas bobas, que escondiam um desejo de entender o que estaria passando na cabeça dele. Impossível descobrir. Ele parece mais fechado que um cofre de banco suíço.
Na véspera da primeira apresentação do projeto, estávamos em nossa conversa noturna que se tornara cotidiana, faço algo que me tira do prumo. Não sei exatamente o que fiz, e o trabalho de dias sumiu. Desintegrou-se num piscar de olhos.
Vendo meu desespero, Paulo tenta me acalmar e me orientar, mas entro em pânico.
Ele me ensina um mantra e pede para que eu sincronize a respiração com a emissão de cada sílaba do mantra. Ficamos repetindo por alguns minutos, até que o interfone toca. Me assusto mas peço para ele aguardar, e, para minha surpresa, era ele quem estava na portaria esperando para subir.
O pânico volta e de uma forma avassaladora. Fico confusa, com medo e lisonjeada ao mesmo tempo. Ele se preocupa comigo! Mas… e se for um tarado paranoico¿
Ele entra e vai direto ao lap top, correndo contra o tempo. Demora, mas consegue identificar o que ocorrera e ainda reverter o estrago. Depois de uma hora e de eu ter dado tantas voltas na minha pequena sala que daria o percurso de maratona, ele terminou o salvamento do trabalho quase perdido. Bem a tempo de me ressuscitar, pois eu já estava na vala dos esquecidos.
Depois de tanta tensão, abrimos uma cerveja para relaxar e nos demos conta de que já era madrugada. E o silêncio reinou. Nos demos conta de que todos os assuntos que usávamos para esconder nossos sentimentos, já haviam se esgotado. Nos olhamos e baixei a cabeça. Reconhecendo que é o momento. Aquele momento que alguém precisa tomar a iniciativa. E que, se não tomar, essa história pode ser apenas uma história sem fim.
Segundos que parecem séculos. Pensamentos que se atropelam na velocidade da luz.
Até que resolvo sair dessa situação da forma que eu sei: colocando uma música. Baixinha, pois já era madrugada. Ele me puxou para perto dele e começamos a dançar. Não sei dizer quantas músicas foram. Mas, aquele tempo que há minutos atrás se arrastava, passou a correr. Queríamos que ele parasse, mas não tem tecnologia para isso ainda. E ficamos nesse flash mob, um musical quase silencioso, madrugada adentro.

