A autora do livro “Kim Jiyoung, nascida em 1982”, Cho Nam-Joo, e eu nascemos no mesmo ano de 1978. Instigou-me saber o que uma contemporânea sul-coreana minha tinha a dizer sobre a vida de outra mulher, sua personagem Kim Jiyoung, um pouquinho mais jovem que a gente. Da cultura sul-coreana sei pouco. Do universo feminino, bem mais. E a curiosidade em saber como vivem as mulheres na Coreia do Sul, ainda que por meio da ficção, me lançou à leitura, assim como mais de um milhão de leitores no mundo, de suas 172 páginas consumidas em apenas dois dias de um final de semana atípico.
O livro veio até mim como um presente, logo após eu saber que o Prêmio Nobel de Literatura deste ano havia laureado uma conterrânea da autora (e da personagem Kim), a também sul-coreana Han Kang, nascida em 1970.
Com tantas referências sul-coreanas surgindo por todos os lados em meu mundo eminentemente “ocidental”, lancei-me a conhecer Kim. Em todo o livro, página a página, a história de Kim foi se delineando e mostrando aonde, talvez, a autora quisesse chegar. Porém, só pude mesmo conhecer o coração de Kim nas últimas páginas, quando a autora arremata o ponto final da costura feita durante todo o livro, trazendo um final surpreendente que, enfim, crava a situação da mulher na sociedade sul-coreana.
A história de Kim me descortinou como os sul-coreanos vivem, com tantas tradições rígidas que impactam nas vidas de todos, principalmente nas das mulheres. Kim (e sua mãe, sua irmã, avó, sogra, amigas…) fazem parte de um sistema onde as mulheres são encaixadas em um papel fixo e limitado, porém basilar para a vida familiar. Há relatos, como o da mãe de Kim, que sacrificou seus estudos para trabalhar desde muito jovem para ajudar a pagar os estudos dos irmãos homens, ocupando claramente um papel inferior dentro do seio familiar, o que me pareceu ser uma prática comum para a maioria das famílias. Depois, na vida adulta, mesmo sem muita instrução formal, foi ela a alavancar as finanças da família que constituiu, com sua inteligência, austeridade e tino para os negócios. Kim e sua irmã também muito cederam para a educação do irmão homem. Porém, progrediram e foram à Universidade. Quando caíram no mundo do trabalho, porém, se depararam com discriminação e assédio, aparentemente normalizado na cultura sul-coreana, segundo o olhar da autora Cho Nam-Joo.
As cenas de assédio, os abusos que ocorrem em todos os lugares, inclusive no trabalho, escancaram a realidade de condescendência para com os assediadores e a desumana e injusta responsabilização das vítimas. Algo tão comum também na nossa sociedade ocidental. As situações são tão extremas e constantes que adoecem as mulheres e impactam nas vidas também dos homens e das famílias, pois precisam lidar com esposas e filhas a beira do colapso.
Kim é uma mulher comum, que vive sua vida como qualquer uma de nós, estudando, trabalhando, preocupando-se com as finanças da casa, com o futuro da filha, com a saúde da mãe, com o casamento, etc. Mas se vê enredada em uma teia estrutural tão rígida e injusta que se vê impotente para rompê-la, numa desesperança adoecedora.
É sobre Kim, é sobre Cho Nam-Joo, é sobre Han Kang, é sobre a Coreia. Mas podia ser sobre mim ou sobre você. No nordeste do Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo.

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