Belinda e Dani se encontraram para um café da tarde em uma nova cafeteria recém-inaugurada. As amigas conversavam sobre um assunto muito pesado quando a atendente se aproximou para anotar os pedidos.
— Dani, não aguento mais! Rodolfo fez de novo.
— Não acredito! E você não fez nada? Deixa eu ver essa marca… Oh, que horror.
— Essa não é a primeira vez. Olha aqui! Tenho mais cicatrizes hoje do que quando era criança, ralando o joelho na terra no subúrbio.
— Não entendo esse comportamento dele. Era sempre tão gentil…
— Pois é… Conquista todo mundo por onde passa, mas quando a gente chega em casa, o tratamento é esse.
— Será que a dieta tem afetado o temperamento dele?
— Não mesmo! Conversei com a médica que o acompanha, e ela disse que eu preciso ser firme e conseguir um especialista.
— Sério?
— Sério!
— E por que você continua investindo nele, amiga? Achei que ele tinha chegado há pouco na sua vida!
— Olá, boa tarde! Meu nome é Helena e vou anotar seus pedidos. — Seus olhos denunciavam que havia ouvido toda a história.
Belinda escolhe um café preto, puro, sem açúcar e sem adoçante. “Essa aí já perdeu a alegria de viver…”, pensou. Dani escolhe um cappuccino com creme extra e um cookie para acompanhar. “Sabe aproveitar os bons momentos.” Helena virou de costas e ainda conseguiu ouvir mais um pouco.
— Quando ele tá calmo, é amoroso demais. Me deixa tão feliz… Os momentos de fúria é que me fazem questionar esse carinho. Quero dar mais uma chance para ver se descubro de onde vêm esses rompantes. Dizem que ser abandonado pela mãe muito cedo acaba acarretando nisso…
— Isso é desculpa, amiga! Até nisso vão culpar a mãe? Você não pode se render àqueles olhos castanhos bonitos depois que ele te trata pior que uma cadela de rua!
Helena sabia bem como era esse tipo de homem que maltrata mulher. Ela queria falar com a moça do café puro que conhecia um grupo de apoio, que tinha saída. Mas decidiu não se precipitar; quando levasse o café para a mesa, tentaria abordar o assunto.
— Não fala assim! Eu sei que ele me ama, só não tem noção da própria força. Até quando ele quer me dar um beijo é atrapalhado e me machuca.
— Você não existe, Belinda! Se fosse eu no seu lugar, já teria posto ele pra fora de casa há muito tempo! Quando eu vou poder te visitar de novo na sua casa, amiga?
— Por enquanto está difícil. Prefiro não expor ninguém a esse constrangimento.
Quando Helena retorna com os cafés, as amigas mudaram de assunto, e ela ficou sem saber como falar. Anotou seu telefone no cartão do restaurante e entregou a Belinda, insistindo que ela ligasse caso precisasse conversar. Belinda agradeceu, sem entender, e prometeu voltar.
Duas semanas depois, as amigas se reencontram no café. Helena reconheceu a moça do café puro e hematomas. Quando chegou à mesa para anotar os pedidos, conseguiu ouvir a conversa logo no início:
— Belinda, como você está? Botou Rodolfo pra correr, amiga?
— Ah, eu te falei! Desde que o especialista começou a ir à nossa casa, o comportamento dele é outro. O especialista disse que eu sou a âncora emocional do Rodolfo…
— Que balela! — exclama Helena, tomada de revolta, e continua: — Desculpa atrapalhar, moça, mas não acredita nessas conversas. Isso é manipulação emocional.
— Como assim? Não, menina! Você entendeu errado, vou te explicar. Como âncora emocional dele, eu devo ser sempre firme, e ele vai prestar atenção e me ouvir quando eu disser que passou dos limites!
— E homem lá sabe de limites?
Dani cobriu a boca com a mão, incapaz de falar. Belinda olhou perplexa para a atendente.
— Homem? De que homem você está falando?
— Rodolfo, seu namorado, que anda te deixando cheia de marcas roxas. Se eu soubesse onde você mora, teria chamado a polícia pra ele.
Belinda explode em risos, e Dani também.
— Não, moça, Rodolfo é o cachorro vira-lata que adotei na feira…
