O vento quente balançava os cabelos de Elisa. A caixa em suas costas era pesada e inclinava-a para trás, exigindo que ela se agarrasse com mais força à cintura de João.
Ainda tinham muitas entregas até o dia de trabalho dele findar. Como ela
entraria em seu plantão à noite, no hospital, aquele tempo sobre duas rodas era o único em que poderiam ficar juntos naquele domingo de sol.
Faltavam três meses para o casamento deles e o dinheiro extra daquele domingo seria valioso para ajudar a concluir as compras para a casa que estavam prestes a alugar. Não haveria festa para familiares e amigos. A festa deles seria a dois, na casa nova, na primeira noite de casados. Elisa já tinha planejado tudo: um jantar romântico, o quarto arrumado, o vestido mais bonito dela que, depois, daria lugar à camisola toda de renda feita pela avó, mãe e irmãs. Três gerações costurando o novo momento dela. Não precisavam de outra festa.
Com Elisa na garupa de João, conseguiam ser mais rápidos e fazer mais entregas. Era uma parceria de sucesso. A mãe de João tinha preparado o almoço dos dois que estava na caixa de isopor, junto com as entregas dos clientes. O cardápio de hoje era o prato preferido dela. A sogra a conhecia tão bem! Lembrou-se da primeira vez em que a viu, quando foi fazer um trabalho de escola na casa do colega de classe, junto com outros amigos. Alguns anos dividindo as carteiras escolares da mesma sala e a paixão entre eles foi crescendo junto com o envelhecer dos pais, da escola e deles próprios.
Pararam para que ela descesse e entregasse o almoço para um senhor de meia-idade que já os esperava na porta. Ele agradeceu gentilmente e estranhou a entrega feita por um casal. Perguntou por que eles faziam entrega em dupla e ela resumiu que eram noivos, precisavam do dinheiro para casar e, juntos, ganhavam mais e ainda podiam desfrutar da companhia um do outro.
O cliente ofereceu uma gorjeta e pegou o celular para fazer um pix. Elisa rapidamente informou a chave pix dela e o cliente se pôs a fazer a transferência. Ele errou algumas vezes o número que ela fornecera e, querendo se desculpar, brincou, dizendo: “Parece até que hoje eu tô com TDAH”. Elisa sabia o que era TDAH. Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade. Após a conclusão da transferência, ela agradeceu e se despediu, sem nem conferir qual o valor depositado. Subiu na moto
e o capacete começou a incomodá-la, parecendo sufocá-la. Mas não podia
dispensá-lo naquele momento. As lágrimas escorriam timidamente e João,
conduzindo sua moto rumo à outra entrega, nem percebeu. TDAH, para Elisa, não era brincadeira. Era sua condição permanente, diagnosticada por uma psiquiatra que ela conheceu no hospital e que ofereceu gratuitamente as consultas que resultaram no diagnóstico, depois que ouviu um relato sofrido de Elisa ao fim de um plantão.
O diagnóstico era recente e Elisa ainda estava se adaptando à medicação. Mas já sentia uma diferença considerável. Conseguia se planejar melhor para realizar suas tarefas de rotina, se concentrava mais facilmente quando precisava ler algo, não se sentia mais tão exaurida ao sair do trabalho e estava sonhando em cursar uma faculdade, assim que pudesse abrir mão do dinheiro dos plantões noturnos. Todos os dias ela agradecia a Deus pela oportunidade que a psiquiatra havia lhe dado.
A médica continuava a acompanhá-la gratuitamente, pois havia se compadecido da história de vida de Elisa, repleta de situações de vergonha e sentimento de desencaixe num mundo diferente do que ela sentia internamente. Mas o diagnóstico não foi indolor e nem redentor de imediato.
Demorou um pouco até que Elisa entendesse que muito possivelmente o TDAH era a origem do seu desconforto e que as sensações que a acompanhavam ao longo da vida não eram decorrentes apenas de uma fase da vida, como os pais pensaram, mas sim resultado do transtorno que ela tinha herdado de algum familiar. Saber do porquê dela ser como era estava paulatinamente dando o conforto de entender melhor a si mesma. Mas a dor não deixa de existir porque foi explicada. Então o comentário do cliente fez sangrar a ferida em cicatrização lenta.
O rímel que tinha passado nos olhos pela manhã estava se desmanchando. Ela tinha a preocupação de não passar rímel quando sabia que iria se emocionar. Foi assim no jantar de noivado dela, no casamento da irmã, quando o avô faleceu… Mas não havia se programado para chorar naquele domingo de entregas sem fim. “Dane-se o rímel, o choro, e esse controle que não é meu”, pensou. Tratou de acalmar o coração e se concentrar na paisagem que corria tão apressada quanto os desejos do coração dela.
Repentinamente, em meio ao sol torrencial da cidade praiana, uma chuva vermelha se fez sobre eles. Grossas gotas pintaram os capacetes, as roupas, os cabelos. Apenas a caixa de isopor, que já era vermelha, desdenhou da torrente. Foi tudo tão rápido que, ainda sem entender, pararam no semáforo, também vermelho, que estava há poucos metros de onde foram alvejados pelas gotas. Elisa tratou de verificar se não estavam feridos. Seria sangue deles a espirrar em ambos?
Seria sangue de outra pessoa? Seria sangue, afinal? Por segundos, o pânico tomou conta deles, apesar de não estarem sentindo nada que indicasse que estivessem feridos. Mas de onde teria surgido essa “chuva”? Um motoqueiro parou do lado deles e apontou para algo jogado no meio do asfalto, há alguns metros atrás. Em um primeiro momento, Elisa não conseguiu raciocinar nada lógico que vinculasse o que via no asfalto ao que havia acabado de acontecer.
“É tomate! É molho de tomate!”, gritou o colega motoqueiro. E mostrou novamente a caixa de molho de tomate jogada não se sabe por quem no meio do asfalto. Foi o próprio motoqueiro que, em um descuido, passou a moto por cima da caixa, amassando-a e explodindo o conteúdo dela sobre eles. O motoqueiro companheiro de entregas também estava tão pintado de molho de tomate quanto eles, iguais as pizzas que entregavam pela cidade. Todos caíram na risada.
Elisa e João encontraram um bom lugar à sombra para estacionar e verificarem o quanto estavam sujos e se poderiam prosseguir daquela forma. Nesse momento, Elisa checou o celular e viu a notificação da gorjeta que o cliente anterior havia creditado em sua conta. Foi de mil reais! Elisa não acreditou no que via e a primeira coisa que pensou foi que o senhor devia ter se equivocado e colocado alguns zeros a mais na transferência. Mas a observação contida no crédito dizia: “O valor da gorjeta é mil reais mesmo. Me emocionei com a história de vocês. Boa sorte”!
Elisa mostrou a João e contou a conversa com o cliente, inclusive a
menção ao TDAH. “Incrível como o ser humano ainda me surpreende”, pensou Elisa.
Eles se abraçaram e choraram de gratidão. Com aquela gorjeta poderiam encerrar as entregas depois da última encomenda que já estava com eles. Subiram na moto e antes de acelerarem, Elisa disse para João:- Da próxima
vez, ao invés de me preocupar se devo ou não usar rímel, é melhor me preocupar em sair com um guarda-chuvas para molho de tomate! Aceleraram e o barulho do motor se misturou às gargalhadas deles. E partiram rumo à próxima entrega.
