Os médicos do INSS não sorriem

Os médicos do INSS não sorriem. Estão sempre com a cara fechada. Pouco papo, poucas ideias. Se você ousa falar, os foras são cortantes. “Não foi isso o que te perguntei” – eis aí uma das frases que ouvi quando tive a audácia de abrir a boca.

Passei por você hoje, doutora. Você nem me viu. Meu caso era leve: estava só pedindo alta. Queria voltar a trabalhar. Você não me deixou fechar a porta. Zero privacidade. Entre nós, esse plástico gasta do tempo da covid. A minha cadeira posicionada de lado, formalizando que você realmente não quer me ver frente a frente. A posição desconfortável, a porta aberta, o rosto fechado.

Hoje meu objetivo aqui é mais leve. É mais fácil conseguir autorização para voltar a trabalhar do que ficar sem trabalhar, não é mesmo? “Esses vagabundos…”, será que você pensa isso? Porque parece.

Olho suas unhas, enquanto você digita. Tec, tec, tec. Vermelhas. E pela primeira vez, eu pude te ver. Porque assim como nós, pacientes, parecemos todos iguais para vocês, nós também achamos vocês todos iguais. Você é a terceira da sua categoria que eu conheço. O primeiro lá no centro da cidade até que foi melhor. Mas aqui em Copacabana… por Deus… você e o outro médico que me atendeu… Nossa, vocês parecem muito de mal com a vida.

Semblante sempre fechado, fortaleza imperscrutável. Armados. Hoje contei a quantidade de vigilantes. Cheguei a três, quatro. O detector de metal na porta materializa o clima bélico. O portão fechado a chave. Só entra com nome agendado.

É, doutora, um “não” seu pode despertar instintos assassinos, me contam silenciosamente os vigilantes e o detector de metal. A senha escrita a caneta no papel, o telão com uma mensagem de erro, mas funcionando. Atraso de uma hora. Eu só queria voltar a trabalhar e nunca mais vir aqui, doutora. Fica tranquila que, se depender de mim, nunca mais vou pegar senha para ver seu rosto carrancudo. Não triste, mas enfezado. Com raiva do mundo.

Tec, Tec, Tec. As unhas vermelhas me fazem pensar que talvez você seja mais descontraída. Que até sorria. Que talvez tenha um amor. E só para ele reserve o que aqui não tem: semblante aberto, olhar atento.

Vou te falar. A prova pode ser concorrida, mas eu jamais gostaria de ter este emprego. O salário certamente é bom. Mas os sorrisos estão sequestrados por todo o expediente. A humanidade junto com eles. E tudo cinza e enraivado.

Hoje eu vi o que é. De verdade. Porque não é medicina, nem atendimento médico, embora seja feito por médicos. É mero trabalho burocrático: assine-se aqui, diga-se acolá, carimbe-se – ainda que virtualmente…Repartição pública, na pior acepção da palavra

Fico pensando que vocês são médicos, podiam ter um emprego melhor.Aí pensei no dinheiro. Ah, o dinheiro. Eu sei como é. Uma gaiola de ouro. E o tempo passa, né? As vezes rápido, às vezes lento. Mas ao sabor das senhas. E uma hora acaba. E você está livre, doutora. Você pode sorrir, agora. Você pode abrir a cara. Você pode. Mas…será que consegue?

Ou as histórias tristes do dia te perseguem?
O que será fingimento e o que será real?
Você finge que nada disso te abala?
“Realmente não me abala”, vejo você dizendo, com a cara fechada.
Se não te abalasse, doutora, você não precisaria fingir que é brava, séria, durona. Não precisaria fingir que não é… gente.

Ah, esse texto vale para você também, doutor.

Deixe um comentário