Você sabe com quem está falando?

Era mais uma reunião para tratar de um assunto recorrente e um tanto quanto polêmico. Sabíamos que o cliente não havia se conformado com nossa recusa e buscaria, em uma reunião presencial, reverter nossa decisão.

Ou, pelo menos, entender os motivos dela e, talvez nos trazer algum fato novo que nos permitisse reconsiderar, o que seria o mais razoável.

Dirigimo-nos à sala de reunião, cumprimentamos os participantes gentilmente e nos colocamos à disposição para escutá-los.

O cliente não trouxe nenhum fato novo para que avaliássemos. Tão somente reforçou seu pleito. Com toda serenidade, tentamos explicar o embasamento que nos levou à decisão e íamos, no momento seguinte, propor alternativas técnicas para talvez contornar a situação de outra maneira, eliminando as restrições que já tínhamos identificado para a situação posta.

Estávamos tão tranquilos quanto à nossa posição e à motivação dela que não esperávamos a cena que se sucedeu. Dois participantes da parte do cliente (incluindo ele próprio) se exaltaram e passaram a bater na mesa e gritar conosco, tentando nos intimidar com sua posição social “de poder” e insinuando que nossa recusa era desrespeitosa, quando, na verdade, era nitidamente o contrário. Felizmente, a situação tensa foi contornada e os clientes foram embora. Nossa decisão foi mantida e, posteriormente, quando o cliente alterou a proposta original dele, eliminando os entraves que identificamos inicialmente, ela pôde ser aceita.

Lidar com pessoas é um carrossel de surpresas. E, por mais que saibamos disso, situações inesperadas como essa nos deixam boquiabertos. Entender o que move verdadeiramente cada um e como ele se enxerga dentro desse mundão de meu Deus é mais difícil do que acertar os números da Mega Sena. Há pessoas que mesmo estando em posição de poder, não subjugam os demais e buscam uma interlocução respeitosa. Não é assim com
todos e a velha frase “Você sabe com quem está falando?” ainda é muito ouvida por aí, nas mais diversas situações.

Essa frase joga nos ouvintes a presunção de quem a profere, sedento
pelo reconhecimento da sua posição. Mais do que isso: desejoso de extrair algo de terceiros com base na importância que ele mesmo credita a si. E normalmente advém de pessoas que desejam forçar o reconhecimento de uma eventual “importância” por meio da intimidação.

Em alguns desses episódios, as perguntas de volta deveriam ser: “E você saberia mesmo com quem nós estamos falando? Você, de fato, conhece a si mesmo e enxerga quem verdadeiramente é, com suas qualidades e limitações? Tentou nos enxergar de verdade antes dessa interlocução desrespeitosa?”.

Afinal, porque é tão difícil para algumas pessoas “tentar usar a roupa que estamos usando” (como diz Luis Melodia em “Pérola Negra”)?

Sempre que me deparo com situações nas quais pessoas se posicionam num patamar de superioridade e humilham os demais, inclusive em contextos dos quais eu nem participo, reflito se estas pessoas estão presas na armadilha de supervalorização de si. Se caíram no fundo falso que elas mesmas montaram sob as folhas e galhos secos da sua insegurança. Tão infladas que estão do que querem ser (ou parecer ser) que não se permitem se conhecer de verdade e entender realmente quem são e o papel que têm. Pior que isso é não se permitirem se reconhecerem como falíveis, minando as possibilidades de evolução.

A linha limítrofe que separa a autoestima da zona do ego inflado pode ser tênue e, às vezes, imperceptível. A autoestima e autoconfiança são importantíssimas para que construamos a segurança na nossa capacidade, de forma a nos fortalecermos para empreendermos as batalhas diárias que todos nós estamos sujeitos. Mas quando essa confiança se exacerba perigosamente ou é construída sobre as bases frágeis da imposição do
poder e dinheiro, torna-se arrogante e origina muitos desentendimentos e injustiças.


O exemplo da frase intimidadora que citei é bem extremo. Mais do que o grito do ego em si, ela tem também um viés cultural da forma como pessoas tidas como “importantes” agem frequentemente. Tanto no trato de assuntos relevantes como nos quotidianos. Mas quando falo na armadilha do ego, estendo, ainda, para aqueles que, ainda que saibam que não tem todo esse poderio nas mãos, se acham soberbamente especiais por alguma condição.

Uma colega de trabalho que já se aposentou há algum tempo e a quem eu muito admiro me disse uma vez que tratava a todos com total cordialidade e respeito, sem distinção da posição social. Isso a ajudava, inclusive, a saber lidar com pessoas tidas como “muito importantes”, pois as tratava com naturalidade, sem vergonha ou receio. E eu a via “em ação”, praticando. Transitava naturalmente entre pessoas de poder e pessoas extremamente
humildes, como as que encontrava nos trabalhos sociais dos quais ela fazia parte. Uma pessoa realmente admirável!

Na música “Competição de Ego”, da banda “O Grilo”, o trecho “O universo não gira em torno de mim. Faço do meu verso um recado pra ti. O universo não gira em torno de ti. Faço do teu verso um recado pra mim” é um lembrete para que fiquemos atentos às armadilhas do ego que podem acometer até aqueles que se acham imunes a elas.

Na reunião contada no início deste texto tudo acabou bem. Nós ficamos perplexos com o que ocorreu mas tranquilos sobre nossa conduta que permaneceu respeitosa mesmo em meio ao embate. Sabíamos que as ofensas do cliente diziam mais sobre ele do que sobre qualquer outra coisa. Nós, de cá, seguimos fazendo nosso melhor e tentando escapar dessas
armadilhas à espreita em cada esquina.

2 comentários em “Você sabe com quem está falando?

  1. Parabéns Lidianne!

    Precisamos combater essa cultura das pessoas que acreditam ser mais importantes que os outros e não podemos aceitar as imposições sem fundamentos, com muita sabedoria.

    Amei seu texto, como sempre.

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