Despedidas Breves

Minha amiga vai se aposentar.

É uma amiga de trabalho, uma nova amiga, recente na convivência que nem mesmo diária é, afinal, somos empregadas em uma empresa moderna, com direito a trabalho remoto e tudo mais.

Ela decidiu se aposentar depois de um longo período pensando a respeito. É uma artista, com lindas pinturas, numa temática que me enche de orgulho.

Desde que me contou seus planos, tenho tentado convencê-la a desistir dele. Ela é muito jovem, eu digo; há perdas salariais grandes, eu reforço; você pode deprimir em casa, me esforço. 

Mas não é isso. 

Se minha amiga se aposenta, com quem eu vou conversar? Para quem vou falar da ultima série coreana que vi? Como vou debater o machismo nas comunicações internas da empresa, mesmo quando se esforçam pela diversidade? Como vou fazer na hora do almoço, quando falamos sobre nossas famílias, e discutimos as tradições mineiras às quais fomos submetidas? Quem vai me ajudar com um pouquinho de sensatez (ou a queimar o sutiã na fogueira?) quando ela não estiver lá? Como vamos reclamar da temperatura glacial da sala? 

Pequenas perdas.

Ontem li um texto da psicanalista Ana Suy que dizia assim:

“A gente vive se desprendendo daquilo que éramos, daquilo que nos ligava ao outro e de partes de nós mesmos.

O amor é, então, irmãozinho do luto: aquilo que fica quando quase tudo vai – e transforma esse quase e esse tudo em outra coisa.”

A gente nem sabe que ama até perder. Recentemente padeci meu luto de deixar uma vida construída ao longo de seis anos em outro estado para trás. Chorei muito a partida e escrevi poemas de dor e solidão. 

Também não tem muito tempo, uma grande amiga contou sobre seu processo de luto quando nos mudamos de cidade. Ela sentia falta dos nossos cafés, das tardes de estudo, da capacidade de abraçarmos mutuamente nossas estranhezas e nossas descobertas. Eu sei, amiga, agora sei exatamente pelo que você passou.

Hoje, quando reencontrei minha amiga que vai se aposentar, perguntei de novo: você está certa disso? E ela sorriu, mais feliz que criança na praia. 

Foi quando assumi em voz alta o sentimento que achei mais verdadeiro: é inveja o que sinto. Queria estar me aposentando também. 

Olhando em retrospecto, quando decidi escrever sobre esse sentimento, entendo melhor. É a dor da perda. E vou precisar viver com ela, até sentir outra coisa nesse lugar. Mas esse é um acerto de contas que preciso fazer comigo mesma.

Eu sei que minha amiga estará a um WhatsApp de distância, mas isso não me impede de sentir sua falta desde já. 

E meu desejo de verdade é que você, minha amiga, receba o melhor sempre. 

Carpe diem! Aproveita sua vida. 

Publicado por Elaine Resende

Elaine Resende é arquiteta, doutora em engenharia civil e escritora. Contribui nos blogs Sabático Literário, Coletivo Escreviventes, Escritor Brasileiro e Mulherio das Letras Ceará. Autora dos livros A Professora da Lua e a Princesa Dourada e o Mandacaru Mágico, ficou em segundo lugar estadual no prêmio Talentos APCEF e participou de diversas antologias. Seu perfil no Instagram @cria.elaineresende traz resenhas de livros e filmes, alguns textos e pensamentos. No canal do YT @Lendodetudoumpouco discute literatura. É carioca e vive com o marido, dois filhos e seus cães Apolo e Byron.

Deixe um comentário