Carnavrau

Terça-feira de carnaval. Saí de casa no horário do almoço do porteiro porque não queria ver nenhum rosto conhecido. O vizinho sentado na portaria atrapalha meus planos. Há fila no mercado que fica em frente à praça onde o bloco toca marchinhas de carnaval. Cruzo com os foliões. Só esse samba enredo já deve ter mais de 20 anos com certeza. O pensamento é o gatilho para lembrar antigos carnavais. Repassei as memórias, tentando achar as raízes para nunca ter encontrado, nesta festa, essa alegria tão fácil às outras pessoas.


Ia dizer que minha família não gosta de samba. Mas lembro que tinha um LP que acho que era de samba lá em casa. Martinho da Vila? Me recordo vagamente de uma capa. Mas não consigo lembrar de nenhuma manhã em que se colocou um samba para tocar. Meus pais preferiam Roberto Carlos. Disso eu tenho certeza. Mas botar um samba para tocar, alguém dançar, sambar alegre, com um copo de cerveja na mão ? Isso com certeza não tinha.
Meus pais não bebiam. Até já vi meu pai beber socialmente, mas ele passava mal, coitado. Na nossa geladeira não tinha cerveja e acho que nunca vi meu pai ou minha mãe com um copo de bebida na mão. Meu pai trabalhava muito. Com certeza terça de carnaval ele tava trabalhando, como estavam os trabalhadores do Zona Sul em frente à Praça São Salvador. Carnaval não é para todos. É, vai ver não era pra gente. E eu fiquei com isso até hoje. Vai ver foi isso.


Apesar de criança, não lembro de curtir carnaval. Meio como os trabalhadores do mercado. Mas meu pai nos levava no viaduto que fica ao lado do Sambódromo para espiar a festa. Disso eu lembro. Naquela época o viaduto ficava aberto. E podia-se parar o carro. Nosso Fiat 147, caixinha de fósforo. Ou seria o fusquinha? A gente era pobre. Não miserável. Mas não classe média. Morávamos no subúrbio. Não sei se já tínhamos saído da favela nessa época. Também não lembro do que a gente via. Só lembro do viaduto. Hoje em dia eu passo nesse viaduto todo dia para ir ao trabalho. Eu moro perto desse viaduto, do lado bom. Quem diria.


Não lembro de vestir fantasias quando criança. Nem de brincar carnaval. Pular e jogar confete e serpentina. Lembrei agora que tinha bate-bola e eu tinha medo. Ah, era na favela, com certeza. A gente ainda não tinha se mudado pro apartamento perto da favela, de escada, em que a gente morava no quarto e último andar.


(Olha eu me fazendo de vítima. Querendo mostrar como sofri. Eu tinha um teto, meu pai não bebia, quem tem pai alcoólatra ou que gastava tudo com bebida iria adorar ter minha vida. Por que me sinto triste?)


Não sei se era assim mesmo minha infância, tenho que perguntar pra minha mãe. Ela dizia que quando jovem gostava de Clara Nunes. Clara Nunes é samba, não é? E gostava de carnaval. Quando jovem. Eu acho que ela dizia. De minha parte, não lembro de ser vestida de fantasias. De ser autorizada a brincar. Me lembro mais daquela manhã em Jundiaí em que minha mãe passava uma roupa de ombreiras, social, marrom, para eu ir brincar no parque. Mas, antes, com ar grave, anunciou que meu pai estava nos deixando, porque ia morar com outra mulher. Acho que ela disse que ele não gostava mais da gente. Ela disse ou eu estou inventando? Existem memórias falsas, não é? Talvez eu esteja inventando, né? Para fazer um drama e chorar no carnaval. Eu sempre choro e fico triste no carnaval. Meu Deus, por que não troco esse disco? A terapia é semanal, são 20 miligramas de remédio diários, por que isso não está funcionando?


Já tentei fugir desta festa, fazer esses dias mais felizes. Viajar. Quando eu achei que tinha resolvido minha vida, eu prometi a mim mesma que nunca mais passaria um carnaval no Rio. E cumpri minha promessa. Até desistir de fugir em fevereiro de 2020, quando não encontrei a paz nem em um quarto de hotel de frente para o mar. Nada a ver com pandemia. Problemas que cabem em um livro. Só sei que eu desisti. Nem ver mais os carros alegóricos na Presidente Vargas eu vou mais, desde que roubaram meu celular ali e levaram junto um pouquinho da minha alegria de ver o carnaval. Too sweet for rock’n’roll. Too silly for carnival.


Hoje em dia eu sonho com um futuro diferente. Um tentar de novo. Por isso eu tava tentando estudar, até vir aqui escrever esse texto, para ver se ele me ajuda, a tirar isso do peito, para ver se eu consigo, a partir dessas lembranças, perdidas em um texto sem coesão, às vésperas de uma decisão importante, para ver se eu posso viver diferente, da próxima vez. Quem sabe…

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