Hoje, observando o discurso de uma pessoa religiosa sobre política, me peguei fazendo uma viagem no tempo e compreendendo o motivo de tudo isso me parecer tão familiar.
A estratégia política de invadir espaços religiosos ou misturar interesses políticos à religião não é nova, mas ela vem ganhando corpo nos últimos anos e isso não é apenas uma caça aos votos. É algo muito maior.
Esse pesadelo atravessou nossa história pela primeira vez no ano de 1549 durante o período da colonização, quando a Companhia de Jesus (os Jesuítas) chegou ao Brasil.
Trazidos pelos europeus, sua missão era catequizar os povos originários, convertê-los ao catolicismo. A partir desse ponto, essa história começa a se desdobrar em inúmeras violências – todas cometidas em nome de Jesus, claro, como já sabemos. Um Jesus trazido e aclamado pelo povo Europeu, povo esse que roubava, matava e destruía. Mas o ponto principal do meu raciocínio não é esse. Minha intenção aqui é organizar um raciocínio que me levou a uma ligação entre a política daquela época e a atual, fazendo um paralelo entre as ações ligadas à religião e à fé.
Naquela época, o objetivo era “civilizar” os povos originários, já que estes resistiam ao processo civilizatório e à escravização implementados pelos europeus e escondiam-se em suas aldeias nas florestas, longe do controle dos homens brancos, invasores de nossas terras. Recusavam-se a entregar sua liberdade, a abandonar seus costumes, seus rituais, suas famílias, sua comunidade.
Os Jesuítas partiram então em busca das aldeias indígenas usando o discurso da salvação, a intenção de “protegê-los” da escravização, levando-os para os aldeamentos jesuíticos. Esse movimento facilitava sua conversão cultural (que nada mais era do que estratégia de controle e domínio). Uma vez dominados, os indígenas poderiam fornecer força militar auxiliar contra tribos mais resistentes, intrusos estrangeiros e escravos rebeldes.
Os Jesuítas não quiseram, por exemplo, fazer o mesmo com os negros, uma vez que estes já haviam sido dominados e escravizados. Diziam que eles, os negros, não tinham alma e os escravizavam, comercializavam como coisas, exatamente como faziam os colonizadores europeus.
Nas tribos mais resistentes, um número incontável de índios foram mortos, muitas crianças foram levadas para longe de suas famílias sob a prerrogativa cristã de educar e salvar aquelas almas. Ao apagar a língua, a fé e a cultura, minavam a força das comunidades indígenas e a estratégia de dominação ganhava força. Havia ali um objetivo político muito claro, que nada tinha a ver com Ele, Jesus. Essas crianças, presas e torturadas por anos, perdiam sua identidade, seu lugar de pertencimento, deixavam de pertencer a uma comunidade organizada e independente, deixavam de resistir ao sistema colonialista e novas gerações iam sendo forjadas compulsoriamente na cultura cristã eurocêntrica enquanto todas as outras eram demonizadas.
Durante os anos do “trabalho” de letramento e catequização praticado pelos Jesuítas – com muita violência, castigos físicos e psicológicos, os índios conheceram um Deus que era salvação e castigo. O mesmo Deus que poderia mandá-los para o inferno com seu implacável senso de justiça, era também o único que poderia salvá-los caso lhe prestassem obediência, afinal, era bom e misericordioso. O mesmo Deus que lhes deu a vida, a natureza e a liberdade, agora, os controlava, aprisionava, castigava. Uma grande dicotomia.
Ora, se só Deus na figura de Jesus pode salvá-los, onde está a responsabilidade do Estado diante desses novos cidadãos civilizados?
Nos dias de hoje, a história se repete com ferramentas e estratégias de dominação mais sofisticadas, atualizadas para os novos tempos. Já não são mais os europeus em posição de domínio liderando projetos de exploração humana e extração de recursos e riquezas. Os personagens atuais são outros.
Um povo cada vez mais pobre e necessitado, carente de cuidados básicos, precisa buscar esperança em algum lugar, precisa ser direcionado, liderado, acreditar em dias melhores.
Mas esses dias melhores não são uma promessa e uma responsabilidade do Estado. São uma promessa de Deus, um Deus que abarca apenas um seleto grupo de escolhidos. Não mais os católicos, dessa vez. Só Ele é capaz de transformar a vida de seus seguidores através do milagre. Com seus líderes nos púlpitos gritando, clamando e cantando a prosperidade material individual e a cura para todo e qualquer mal como milagres divinos, aliados aos governos em mais uma estratégia de dominação, o Estado vai marchando em direção ao Neoliberalismo, desobrigando-se do comprometimento com o desenvolvimento econômico da classe trabalhadora e abandonando milhões de pessoas à própria sorte.
Vai abrindo espaço para derrubar leis trabalhistas, vai instaurando a pejotização de pessoas pobres através do MEI, vai esquivando-se de trabalhar políticas de saúde para a degradação do sistema e depredação do SUS na busca pela privatização da saúde, vai distanciando-se cada vez mais do seu compromisso com a educação, que volta a ser privilégio de poucos com novas reformas propostas e aprovadas, afastando negros e pobres de qualquer possibilidade de mobilidade social com processos seletivos e editais cada vez mais excludentes, encurralando-os em novos sistemas de escravização.
A segurança, gritam aos quatro cantos, cada um que cuide da sua. É o que traduzem ao apoiar, por exemplo, a organização de golpes, a formação de grupos de justiceiros e armamento de civis. Formam-se novos coliseus.
Um povo que confia no poder divino para a solução de todos os problemas gerados pelo abandono do Estado está ávido pela chegada de um “salvador” ao poder. Entregam, assim, seu voto pela fé.
Todos os pilares da sociedade civil voltam às mãos gélidas dos super-ricos e, quando a classe trabalhadora já não tiver mais força e não puder movimentar-se, volta ao trabalho escravo (em novo formato), ao medo, à escassez, à obediência, ao silêncio.
O ódio e a intolerância disseminados contra os que são, em sua existência, diferentes do que pregam os vieses ideológicos cristãos e contra os que se opõem à conversão, são apenas mais um capítulo da história. Novos fios de colonização. Em nome de Jesus.
