Retomar às rédeas

Não gosto muito desta expressão “retomar as rédeas” porque dá ideia de dominação, de mando, de ordem; mas não encontrei outra melhor.
Vivo, recentemente, uma grande virada de chave na minha vida. Pela primeira vez acreditei, de verdade, que eu consigo.
Foram momentos de diversas emoções misturadas: concentração, introspecção, dedicação, decepção, ansiedade, euforia e, finalmente, insights…muitos insights.
Conheci novas pessoas que me apoiaram e incentivaram como se nos conhecêssemos há anos. Fui decepcionada por outras que eu acreditava haver uma fidelidade recíproca.
Foi uma semana de fortalecimento, agradecimento profundo e de retomada de mim mesma.
Reflito há algum tempo sobre como a maternidade atípica me anula como profissional e como mulher (pode ser apenas uma impressão); mas, por vezes, sinto que ainda não alcancei a excelência pelo cansaço, pelas demandas, pela falta de tempo.
Muitas pessoas me perguntam como consigo fazer tantas coisas, ter tantos projetos sendo mãe de uma criança com paralisia cerebral e autista e, saindo do modo automático, comecei a refletir sobre isso.
Em primeiro lugar sou extremamente grata e feliz pela vida que eu tenho.
Em segundo lugar, tenho uma mãe fantástica, de vanguarda, cúmplice e parceira que é meu braço direito, esquerdo, pernas, tudo que possa fazer para permitir que eu me dedique aos meus planos. D. Sílvia fará 82 anos neste ano. Impossível não pensar na impermanência.
Em terceiro, uma filha linda, parceira, que me proporciona momentos de muita cumplicidade, risadas e orgulho pela mulher que está se tornando.
Em quarto lugar, acredito que não são as circunstâncias que determinam minhas escolhas e meu destino, mas como eu lido com elas.
Em quinto lugar, jamais desperdiçaria a chance de crescimento como pessoa com tudo que meu filho me ensina. Tenho pena de quem não evolui tendo um filho neurodivergente.
E por que retomar as rédeas?
Assim como afirmei que as circunstâncias não me limitam e não me determinam, decidi e entendi que a maternidade atípica não me limita. Ela exige mais do meu tempo e da minha dedicação mas, quando há vontade, desejo e determinação, dá-se um jeito.
Muitos acontecimentos vêm confirmando meu bom trabalho com a psicanálise. Estou me amando mais, retomando meu lado mulher e me autorizando ser amada. E decidi retomar o controle dos cuidados comigo mesma, tão negligenciados em detrimento do cuidado com os
outros.
Escrevi há um tempo para o meu site, um texto intitulado: quem cuida de quem cuida?
E hoje, respondo que, precisamos de uma rede de apoio, sim! No entanto, algumas coisas, só nós podemos fazer por nós mesmos.
Neste momento, me sinto profundamente alegre por fazer por mim o que precisa ser feito. E me preencho com o carinho de pessoas que talvez nem saibam que esse texto é um agradecimento a elas.

Publicado por claudianagau

Filha, mãe, professora, psicanalista. Apaixonada pela vida, pelos amanheceres, pela lua, por livros, café, charuto e cachimbo. De riso fácil e amiga sincera. Direta até demais. Amante das histórias de mulheres e sobre mulheres e tudo que fale da mulher selvagem, da ancestralidade, do inconsciente coletivo.

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