Suas palavras tatuaram minha memória, numa época em que eu ainda usava calças curtas e os papagaios eram muito mais interessantes do que as pernas das garotas. Conheci-o em um final de tarde, enquanto a cortina escura do céu sem nuvens substituía o bailado das pipas pelo espetáculo perene dos luzeiros.
A brisa estava prestes a se torna ventania, não havia embarcações no horizonte e o facho do farol ofuscava a minha visão, cadenciadamente, à medida que girava ao redor do seu próprio eixo. Juntei o rolo de linha, envolto a uma lata de leite vazia, mas, diferente do costume, não acompanhei os garotos que deixavam o morro do farol em direção à cidade.
Petrificado como a linha banhada em cerol que restara de minha derrocada, me condoí pela figura do mendigo e do seu saco de trapos que cruzaram o meu caminho. Ele tinha um ferimento na perna que aumentava o peso da sua marcha.
—Senhor, é preciso tratar essa ferida. Por que não vai ao posto de saúde?
O homem levantou os olhos do chão e estacionou os passos. Fios grisalhos cobriam partes do seu rosto, conforme o vento açoitava-lhe as costas.
— Deus me livre de tamanho suplício!
— Tem medo de médicos?
— Não tenho medo de nada, só não quero que me mandem tomar banho, cortar o cabelo e fazer a barba.
Minha condição de menino, se identificou com o maltrapilho.
— Não gosta de banho, não é mesmo? Te entendo, vez ou outra, também fujo dele.
— Não gosto de nada daquilo que possa me roubar a identidade.
— Isso quer dizer que o senhor aprecia sua condição de mendigo?
— Mas é claro! É minha profissão. Na sociedade, há médicos, engenheiros, cozinheiros, lixeiros e mendigos. Sou um deles.
— Não sabia que mendigo era profissão. Meus pais também não sabem, pois vivem dizendo que, se eu não estudar, posso virar um deles. Eles têm medo de que isso aconteça.
O homem sorriu.
— Seus pais estão certos. Ser mendigo é um ofício árduo e muito mal remunerado. Para mim sobram apenas minguadas moedas e o pão que ninguém quis comer.
— Mesmo assim, tem medo de que lhe deem banho e deixe de ser mendigo?
—Essa é a minha missão. Sou um sinal de alerta quanto ao risco da marginalidade. Quem olha para mim, sabe que as margens são estreitas e que bastam poucos, ou apenas um tropeço, para estar do lado de fora delas. A humanidade, menino, caminha impelida pela inércia que a impede de parar para recolher aqueles que ficam à sua margem.
— Mas, senhor…
O mendigo voltou a caminhar.
Ressenti-me. Desejei saber o seu nome e que tropeço lhe lançara para fora das tais margens e onde elas ficavam.
Não tive tempo, como pipa cortada no céu, o mendigo desapareceu e pousou não se soube onde.
