Admiro aquelas pessoas que nascem e morrem na mesma casa. Nunca tive uma tenho uma. Tenho várias. Não porque seja proprietária, mas por não ter uma. Filha de pai militar e depois casada com um militar, morei em muitas casas. De cada uma, várias lembranças. Umas boas outras nem tanto.
Em todas elas havia a solidão. Solidão da menina, solidão da adolescente, solidão da mulher. As muitas solidões traçaram meu caminho. Hoje é na escrita e nas colagens que essa solidão é mais necessária. Já não é um incômodo, mas uma necessidade.
A vida ainda é caótica, sem a rigidez de uma rotina de escrita e isso é um problema. Perco prazos de editais, desafios e exercícios de escrita. Mas, por outro lado, sempre me pergunto qual a pressa? Hoje posso me dar ao luxo de não ter pressa e o mais valioso: não aceitar que me obriguem a escrever ou publicar o que não quero.
Pensando sobre essa questão lembrei da Maria Carolina de Jesus. Uma mulher forte, uma escritora rara. Como escrever quando a barriga está cheia de vento? Como escrever quando os filhos gemem de fome? Como escrever quando as contas vencem e o dinheiro escasso? Escrevemos porque a única palavra que não nos abandona é a esperança.
Como disse não tenho uma casa, mas várias com quintais repletos de árvores e frutas, mergulhados no som das brincadeiras e risadas da criança que fui. As festas, os jardins floridos, os móveis escolhidos para o casamento e para o quarto do filho. A cama vazia, as portas fechadas, a partida sem malas. A coragem, o filho pela mão e as lembranças que restam foram ficando pelo caminho.
Casa de Memórias

Que bonita essa imagem, amiga, de partidas e quintais floridos. De força de vontade sem pressa, de esperança no próximo endereço. Obrigada pelo texto. 😉
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Que lindo texto, Céu! Identifiquei-me em várias passagens. Destaques para:
“A vida ainda é caótica, sem a rigidez de uma rotina de escrita e isso é um problema. Perco prazos de editais, desafios e exercícios de escrita. Mas, por outro lado, sempre me pergunto qual a pressa?”
“Escrevemos porque a única palavra que não nos abandona é a esperança.”
“Em todas elas havia a solidão. Solidão da menina, solidão da adolescente, solidão da mulher. As muitas solidões traçaram meu caminho. Hoje é na escrita e nas colagens que essa solidão é mais necessária. Já não é um incômodo, mas uma necessidade.”
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