Resenha de filme: “Barbie” traz assunto de gente grande

Se por algum motivo você ainda não leu nada sobre o filme Barbie mas está sendo atropelado pela “onda rosa” nas redes sociais, nós lhe alertamos: veja o filme (ou leia sobre) antes de combinar com sua filha de 10 anos ou menos  para irem ao cinema vê-lo (a censura no Brasil é 12 anos mas crianças menores podem ir ao cinema acompanhadas pelos pais). Barbie não foi feito para crianças. Foi feito para mulheres. Para as nostálgicas que brincaram com a boneca, para as que a detestam porque acham que impõem um padrão de beleza e feminilidade que não nos abarca a todas, para as que amam a mensagem de que a “Barbie pode ser tudo que quiser” ou para as curiosas que querem entender o porquê de tanta celeuma em torno de um filme sobre uma boneca de plástico. Para os homens, um alerta adicional: preparem-se para ver na tela uma caricatura da sociedade patriarcal, com os exageros que toda caricatura tem.  Às vezes, o artifício do exagero é necessário para que saltem aos olhos os absurdos que vemos por aí e que, por terem uma frequência tão recorrente, acabam se revestindo de “normalidade”.

Não se poderia esperar um filme bobinho da cineasta norte-americana Greta Gerwig, a mesma de “Lady Bird” e “Adoráveis Mulheres” . Barbie, de bobinho, não tem nada. Cada fala das bonecas e dos “humanos” têm a intenção de nos fazer repensar porque reproduzimos (ou aceitamos) comportamentos repressores protagonizados, no filme, por ambos os “lados” (das Barbies sobre os Kens, em Barbielândia; e dos homens sobre as mulheres, no “mundo real”). Eu arriscaria dizer que o tema central do filme é sobre opressão, ainda que permeado por cenas e falas realmente engraçadas e por um visual na paleta de cores “Barbie” – com muito rosa e tons pastéis. 

Na excursão de Barbie pelo “mundo real”, a boneca que era acostumada com um mundo em que suas companheiras Barbies (“mulheres” de todos os corpos e raças) são protagonistas e atuam como escritoras, operárias, médicas, presidente, etc se vê, de repente, em um contexto em que é considerada como um mero pedaço de “carne” desejável e totalmente sexualizado, a ponto de precisar dizer, em uma das falas, “eu não tenho vagina”, na tentativa de chocar e de afastar sobre si o assédio que a acompanha por onde quer que vá no “mundo real”.

Nesse “mundo real”, o boneco Ken, completamente desprestigiado em Barbielândia, apropria-se de como a sociedade vê os homens e de todo o poderio que está nas mãos masculinas, a ponto de achar que apenas o fato de ser homem o credencia a ocupar qualquer espaço de poder, ainda que nem tenha a qualificação ou o conhecimento para tal. Nesse ponto, é sobre privilégios que o filme quer falar. Ainda sobre o mundo do trabalho, a cena onde Barbie questiona aos diretores da empresa Mattel onde estão as mulheres na diretoria da empresa que a fabrica, o filme mostra um CEO abobalhado que não sabe onde elas estão (servindo o café, talvez?) e que não cai em si quando a desigualdade de gênero lhe é escancarada pelo seu “produto”, que nada mais é do que uma boneca “mulher” vendida para mulheres ao redor de todo o mundo. A empresa Mattel é quase uma personagem e escancara paradoxos que poderiam fragilizá-la enquanto empresa. Interpreto, contudo, que ilustraram com ela a realidade do mundo corporativo, independente dela reproduzir ou não essa realidade (não conheço nada sobre a empresa em si). Mas pelo alcance que o filme tem tomado, sou levada a crer que a representação da Mattel no filme foi uma jogada de marketing cirúrgica, apesar de todo o deboche.

Em Barbie, “os super-poderes” que apoiam as heroínas de Barbielândia a lutarem por seu mundo não são os que vemos comumente em filmes de heróis ou heroínas, como força física descomunal ou raio congelante ou, ainda, a capacidade de ficar invisível. O que faz as “Barbies” saírem do transe da “inferioridade” é o discurso feminista que vai despertando cada uma delas e unindo-as em prol do que consideram justo e correto. Um recado e tanto!

Ainda estou esperando os homens corajosos que conheço irem ao cinema e me dizerem como se sentiram ao verem na tela uma representação bem extremada de sociedade machista que, infelizmente, todos nós alimentamos, de alguma forma, mas que indubitavelmente tem a mola propulsora principal acionada por mãos masculinas. Vendo “Barbie”, lembrei de outras referências do cinema como “Eu não sou um homem fácil”, filme francês de 2018. Nele, o mundo é invertido e todo o assédio e discriminação que as mulheres sofrem passam a ser praticados por elas contra os homens. E esse extremismo escancara o quão danoso é a opressão sobre qualquer um dos gêneros.

Fui de rosa ao cinema ver Barbie. Iria de novo. E de rosa. E na confiança de que minha feminilidade e a forma como me apresento para o mundo como mulher não minam o que quero realizar em outras áreas da vida. Homens e mulheres que querem construir uma sociedade melhor para homens e mulheres precisam edificar esse castelo da igualdade de direitos e oportunidades, assistindo “Barbie” ou não.

6 comentários em “Resenha de filme: “Barbie” traz assunto de gente grande

  1. Lidi, análise crítica cirúrgica. Ainda não assisti, nem tenho roupa rosa de ir!! Estou curtindo o movimento de posts e áudios de toda a natureza. Movimentos a favor e contra. Assistirei com certeza. Mas o filme de forma endereçada criou essa onda rosa de empoderamento feminino. E o mais importante provocar debates e reflexões, tão quanto sua resenha. Achei o máximo citar o filme francês. Parabéns!!!

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  2. Já não vou assistir o filme “tão somente” pela Margot Robbie(o que não me cansaria) , após essa resenha maravilhosa, tenho algo mais !! Valeu Lidi, aguçou minha curiosidade !!!

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  3. Oi, Lidiane, parabéns pela resenha. Infelizmente tenho ido pouco ao cinema e não assisti a esse filme. Mas Teu excelente texto me despertou interesse pelo filme. Parabéns. Obrigada. Um beijo

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